Ty

[ PT ]


Bom ano, heróis! Começamos 2020, finalmente, com o nosso primeiro herói do mês.


Como vos disse em dezembro, este ano quero introduzir, aqui no blog, sempre que apresentar um herói novo (e sempre que seja possível), palavras vindas diretamente do herói verdadeiro que me inspirou a criar uma personagem. Isto para reforçar a ideia por trás do projeto: que os heróis existem mesmo, e que merecem ser reconhecidos. E sem mais demoras, vamos conhecer o herói do mês de janeiro!


Este mês, mais uma vez, vou-vos falar de alguém que conheci através das redes sociais. O Instagram é a plataforma onde estou mais presente com a Heróis, e é também a plataforma onde encontro inúmeras pessoas maravilhosas que me inspiram e que me mostram que quero continuar a trabalhar neste projeto. Foi lá que encontrei a Cátia, uma mulher, enfermeira, mãe de 4 (na altura, agora já são 5), emigrante, que acompanha mães com questões e problemas do dia-a-dia dos seus bebés, dando conselhos e orientações livres de julgamento. Comecei a falar com a Cátia porque dei por mim a ler e a ouvir tudo o que tinha para dizer sobre a saúde dos bebés (eu que não planeio ter filhos tão cedo) e me vi investida em perceber mais sobre maternidade. A primeira coisa que lhe disse, ou neste caso, perguntei, foi se podia ajudá-la a contar a história dela. É o que eu faço. Sinto-me investida em alguém e, por uma razão ou por outra, sinto que há ali uma história para contar que, sei lá, pode fazer com que alguém, esteja onde estiver, se sinta menos sozinho, por saber que há mais alguém a passar pelo mesmo.


A Cátia contou-me, quase imediatamente, que era enfermeira e que tinha emigrado em busca de melhores condições de vida. Principalmente para satisfazer o seu desejo de ter uma família numerosa. Tem agora 5 filhos maravilhosos, mas não deixa de pensar nos 3 que perdeu (uma das perdas foi a do irmão gémeo do seu mais novo, às 11 semanas de gravidez). Isto, para mim, foi o suficiente para saber que estava a falar com uma mulher poderosa. Pessoalmente, pensar em perder uma criança que é realmente desejada, parte-me o coração. Pensar em perder 3 então, destrói-me por dentro. Mas não foi apenas por isso que eu soube que queria trazer a Cátia para a equipa da Heróis sem Capa. Foi também pelo facto de ela me apresentar a sua história com a premissa de que não sabia se era interessante o suficiente. Estamos a falar de uma mulher que encontra forças em si mesma para continuar a seguir o seu sonho, mesmo sabendo que sofreu e que provavelmente vai sofrer outra vez. Estamos a falar de uma mulher que usa a sua experiência (tanto pessoal como profissional) para cuidar e ajudar outras mulheres. Estamos a falar de uma mulher que fala sem medo de assuntos que, para muita gente, são tabu - como o aborto/perda gestacional e que ouve e fala com mães sem nunca as julgar. Estamos, acima de tudo, a falar de uma mulher que reforça a ideia de que a maternidade é uma coisa maravilhosa, mas que não é um mar de rosas - é extremamente exigente, e entende que é preciso encará-la da melhor maneira possível, adaptada a cada um, de acordo com os recursos que estão disponíveis. Se isto não é interessante e inspirador, não sei o que é.


A Cátia sabe que a admiro, já lho disse... E provavelmente vou dizê-lo mais vezes. Este projeto tem-me aberto os olhos para muitas realidades, umas mais fáceis de lidar do que outras... E está a abrir tópicos de conversa que eu antes, muito provavelmente, ignoraria - por serem difíceis de encarar ou de gerar uma opinião fundamentada. A Cátia tem ajudado com um dos tópicos, o da maternidade, devido a toda a informação que tem disponível e a paciência heróica que tem. Essa é só mais uma razão pela qual vos quero apresentar a Ty (lê-se "Ti"), a mãe enfermeira da nossa equipa, heroína sem capa do mês de janeiro. Está aqui para vos ouvir e ajudar (se alguém tiver uma questão, naturalmente irei reencaminhá-la para a Cátia porque a minha experiência na área da saúde é próxima de nula).


E antes de vos desvendar a cara da Ty, aqui ficam três perguntas e três respostas, entre mim e a Cátia, que espero que vos deixem com um gostinho da bonita pessoa que ela é :) deixo também, no final do post, uns links onde podem visitar a Cátia e conhecer melhor o seu trabalho.



_


Mafalda: Perder uma vida desejada, dentro do corpo de uma mulher, é algo causador de um sofrimento que, pessoalmente, não consigo imaginar. Onde encontraste forças para continuar a seguir o teu sonho de criar uma família numerosa? O teu percurso profissional ajudou, de alguma maneira, a encarar a situação?

Cátia: Para dizer a verdade, depois da segunda perda gestacional decidi desistir. Tinha o Duarte e a Eva, e passar por isso duas vezes seguidas foi um sofrimento inexplicável. Por isso aceitei que seria assim e iria seguir em frente com aquele buraco no peito. Iniciei um método contraceptivo que me causava muitos efeitos secundários e quatro meses depois decidi fazer uma pausa e foi quando engravidei do Francisco, fiquei com um medo terrível, passei toda a gravidez angustiada mas felizmente correu tudo bem e foi o parto mais maravilhoso que tive! Os meus filhos, o meu marido e o meu trabalho foram sem dúvida o que permitiu sempre encontrar forças nestes momentos difíceis. O meu percurso profissional não teve grande influência neste aspecto, mas estas experiências de vida tiveram um enorme impacto na profissional que sou hoje, mais atenta, mais empática com o sofrimento da mulher. 



M: Acredito que a partilha dos nossos traumas, com os outros, nos ajuda a ultrapassá-los e, até, a não nos sentirmos sozinhos no mundo. No entanto, também tenho noção que existem coisas que são demasiado duras para se partilhar. Como vês esta questão, tendo em conta tudo o que já tiveste que ultrapassar?

C:  Eu sei que a perda gestacional ainda é um grande tabu. É como se a mulher fosse menos mulher ou menos capaz, afinal “nem um filho consegue segurar” (frase dita a uma mulher que me procurou), é como se a mulher falhasse por ter uma gravidez que não evolui e por isso é preciso esconder a gravidez nos primeiros meses, para não ouvir comentários depreciativos ou o seu sofrimento enxovalhado com os típicos “ainda és nova, deixa lá” ou “já tens esse(s), não fiques assim” . 

Quando engravidei dos gémeos sabia que perder um deles (ou os dois) era uma possibilidade embora estivesse extremamente confiante por achar que já tinha tido a minha dose, e quando partilhei a gravidez foi com esta consciência: se algo correr mal não vou sofrer sozinha, “vou partilhar o meu sofrimento com o mundo” e dar voz às mulheres que como eu sofreram ou estão a sofrer uma perda gestacional. 

Além disso, caramba, naquele momento nós  queríamos partilhar a nossa felicidade com o universo inteiro! A descoberta de uma gravidez é algo tão espectacular, queremos gritar ao mundo que temos uma vida a crescer dentro de nós e que isso nos faz sentir poderosas, porquê que a mulher tem de ser de certa forma forçada a manter isso em segredo? Porquê que a perda tem de ser algo escondido, como se nos envergonhasse?  Neste caso, mais duro do que a partilha da perda, são os comentários que ouvimos e percebo porquê que a maioria das mulheres se protege, mas sofrer sozinha também é um grande sofrimento. 



M: Tenho a certeza que não sou a única que te vê como uma heroína, não só pelo que passaste mas também por como encaras tudo e como escolheste continuar. Mas e para ti, quem são os teus heróis? (E porquê?) C: Os pais que perderam um filho, os pais com quem convivo no hospital que vêem os filhos lutar contra doenças muito graves ou doenças crónicas muito pesadas, e continuam a lutar e a erguer-se dia após dia. E como não poderia deixar de ser, os bombeiros, família da qual fiz parte durante alguns anos. 


_



Espero que tenham gostado de conhecer a Cátia (e, consequentemente, a Ty), e que estejam com os olhos abertos para o novo ano. Tenho coisas guardadas numa gaveta que estou farta de dizer que tenho e não poder falar sobre isso, mas não falta muito para poder partilhar o meu entusiasmo convosco!! Até breve, heróis :)




Onde encontrar a Cátia:

Instagram — https://www.instagram.com/enfcatiagodinho/

Podcast "A enfermeira esclarece" — https://anchor.fm/aenfermeiraesclarece

Website — https://catiagodinho.pt/

Facebook — https://www.facebook.com/anossamaeenfermeira/




[ EN ]


Happy new year, heroes! We’re starting 2020, at last, with our first hero of the month.


As I told you in December, this year I’d like to introduce, here on the blog, every time I present a new hero (and every time it is possible), words directly from the real hero who inspired me to create a character. This to reinforce the idea behind this project: that heroes do exist and deserve to be recognised as such. And without further to do, let’s meet January’s hero of the month!


This month, and once again, I’ll be telling you about someone I met through social media. Instagram is the platform where I’m most present with this project, and it is also the platform where I find countless wonderful people who inspire me and show me that I do want to keep working on this project. That’s where I met Cátia. A woman, nurse, mother of 4 (then, now she’s a mother of 5) and immigrant, who accompanies mothers with questions on a baby’s day-to-day life and who gives free of judgement advice and guidance. I started talking with Cátia because I realised I was reading/listening to everything she was posting/saying about natal health (me, someone who’s not planning on having kids any time soon). I saw myself invested in understanding maternity. The first thing I told her, or rather in this case, asked her, was if I could help her tell her story. That’s what I do. I feel invested in someone and, for one reason or another, feel like there is a story to be told that, I don’t know, may help someone, wherever they are, to feel less lonely knowing there’s someone out there going through the same thing they are.


Cátia told me, almost immediately, that she was a nurse who left her home country (Portugal) to find a place with better quality of life. Mostly because of her wish to grow a numerous family. She has now 5 wonderful kids, although she doesn’t not think of the 3 she lost (one of those losses was of the twin brother of her youngest, at 11 weeks of pregnancy). This, to me, was enough yo know I was talking to a powerful woman. Personally, thinking of losing a child who’s wanted, breaks my heart. Thinking of losing 3 destroys my insides. That’s not the only reason I knew I wanted to bring Cátia to my Heroes Without Cape team, though. It was also because she told me her story with the premiss that she didn’t know if it was interesting enough. We’re talking about a woman who finds strength within herself to keep following her dream, despite knowing how much she’d hurt and how she’d probably hurt again. We’re talking about a woman who uses her experience (both personal and professional) to take care and help other women. We’re talking about a woman who fearlessly speaks about things that, to most people, are tabu - like abortions/miscarriages, and who listens and talks to mothers without ever judging them. We’re, above all, talking about a woman who reinforces the idea that although becoming a mother is wonderful, it isn’t a piece of cake - it’s extremely demanding, and she understands that one needs to approach it in the best way one can, adapting it to each and every one and accordingly to the resources that are available to them. If that’s not interesting and inspiring, I don’t know what is.


Cátia know I admire her, I’ve told her that… And probably will do again. This project has opened my eyes to many realities, some easier to deal with than others… And it is also opening topics of conversation that, before, I’d most likely ignore - for being hard to face or to generate a well-founded opinion on it. Cátia’s been helping with one of the topics, maternity, due to all of the information she has available and her heroic patience. That’s one more reason why I want to present to you Ty (reads “Tee”), the mum nurse of our team, January’s hero of the month. She’s here to listen to you and help you (if anyone has a question, I’ll naturally forward it to Cátia since my experience in the health department is next to none).


And before I reveal Ty’s face, here are three questions and answers, between Cátia and I, that I hope with leave you with a taste of the beautiful person that she is :) I’ll also leave, at the end of the post, a couple links where you can visit Cátia and get to know her work better.




_


Mafalda: Losing a wanted life, inside a woman’s body, is something that can cause pain which, to me, is unimaginable. Where did you find strength to keep following your dream of having a big family? Did your professional path help, in any way, to face the situation?


Cátia: To tell you the truth, after the second miscarriage I decided to quit. I had Duarte and Eva, an going through that twice was an inexplicable suffering. So I accepted that that was how it was going to be and that I would move on with a hole in my chest. I started using a contraceptive method that caused me many side effects and four months later I decided to pause it. That’s when I got pregnant of Francisco. I was terrified, spent all pregnancy distressed but fortunately all went well and it was the most wonderful childbirth I ever went through! My children, my husband and my work were, undoubtedly, what allowed me to always find strength in these tough moments. My professional path didn’t have much of an influence in this aspect, but these experiences had a huge impact on who I am, professionally, today: I’m sharper, more attentive and empathic with women’s suffering.



M: I believe sharing our traumas, with others, help us getting through them and even help us not feeling alone in the world. However, I also realise that there are things that are too painful to share. What’s your take on this matter, considering what you’ve had to go through?


C: I know miscarriages are still a big tabu. It’s like a woman is less of a woman ou less capable. After all, she “can’t even carry a baby” (something I was told by a woman who came to me). It’s like a woman becomes a failure for having a pregnancy that doesn’t evolve and for that it’s required to hide her pregnancy in the first few months, so that she doesn’t hear depreciative comments ou has her suffering showers by the typical “you’re still young” or “you’ve already have that/those ones, don’t be like that”.


When I got pregnant of the twins I knew I was bound to lose one of them (or even both of them). It was a possibility even though I was extremely confident as I thought I had had my share. When I shared I was pregnant again it was with this in mind: if something goes wrong, I won’t suffer alone. “I’ll share my pain with the world” and give voice to the women who, like me, are suffering or have suffered due to a miscarriage.


Besides, hell, in that moment all we want to do is share our happiness with the entire universe! Finding out you’re pregnant is something so amazing that we want to shout to the world that we have a life growing inside us and that that makes us feel powerful. Why is the woman somewhat forced to keep it a secret at first, then? Why are miscarriages hidden from other people, like they’re something to be ashamed of?


In this case, harder than sharing a loss, are the comments we get because of it. And I get why most women protect themselves, but suffering alone is extremely hard.



M: I’m sure I’m not the only one who sees you as a hero, not only for what you went through but because of how you face everything and chose to keep going. What about to you, who are your heroes? (And why?)


C: The parents who have lost a child, the parent I see at the hospital who watch their children fight very tough diseases or even chronically and very heavy ones, and keep fighting and rising day after day. And as it should be, the firefighters, family of which I was a part of for a few years.


_



I hope you enjoyed meeting Cátia (and, consequently, Ty), and that your eyes are opened for the new year. I’ve got things kept in a drawer that I’m tired of saying I do and not being able to speak on them, but it won’t be too long before I can share my excitement with you! I’ll see you soon, heroes :)




Where to find Cátia:

Instagram — https://www.instagram.com/enfcatiagodinho/

Podcast "A enfermeira esclarece" (in Portuguese) — https://anchor.fm/aenfermeiraesclarece

Website — https://catiagodinho.pt/

Facebook — https://www.facebook.com/anossamaeenfermeira/


277 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Daisy

Beny

Caly