Edy

Nem acredito que vos estou a trazer o penúltimo herói do mês de 2021... O PENÚLTIMO! Como assim?!


Tem acontecido muita coisa nos últimos tempos. De presenças nos media, visitas a escolas, um segundo trabalho que está numa fase de exigir imenso (vem aí o Natal, né?), o próprio Natal aqui do projeto... A minha cabeça entrou em espiral, e há três dias senti que estava a zeros.


Passo mesmo muito tempo a falar sobre a importância de fazer uma pausa, de nos conhecermos verdadeiramente e compreendermos os nossos limites... Da crucial necessidade que é darmo-nos, a nós mesmos, tempo. Ouço, falo, aconselho e aviso, mas mesmo assim custa-me aplicar as minhas próprias palavras na minha própria vida, e não deixo de cair nos mesmos hábitos de auto-sabotagem. Isto deixou-me a pensar numa frase que apanhei, uma vez, num livro (um dos meus favoritos de sempre, deixem que vos diga):


"A mudança passa por perceber o que já não está a funcionar e sair daquilo que nos é familiar, dos padrões que nos aprisionam" *


Quem escreveu esta frase, que eu traduzi do inglês, foi a heroína deste mês de novembro - quem eu vos trago hoje: a Edy, ou Edith Eger (o seu nome verdadeiro). Com certeza já algum de vocês ouviu este nome. Seja porque conversaram comigo e eu vos aconselhei ler o livro dela, seja porque estão atentos ao mundo literário, seja porque o tema do livro é algo sobre o qual gostam de ler. Mas se não sabem quem é a Edith Eger, ainda melhor, porque assim posso ser eu a dizer-vos quem ela é!


Edith Eva Eger é natural da Hungria. Nasceu em Kosice, no ano de 1927. Quando era pequena, andou na escola e no ballet, e foi um membro da equipa olímpica da Hungria. A sua irmã mais velha, Clara, tocava violino e mudou-se cedo para Budapeste, e a sua outra irmã Magda tocava piano. Em 1942, quando foram declaradas leis anti-Judeus na Hungria e noutros países, Edith deixou de poder dançar.


Com o despertar da guerra, em 1944, Edith foi forçada a viver num gueto de Kosice com os seus pais e a sua irmã Magda, pois eram uma família de judeus, enquanto que Clara vivia escondida ao abrigo do seu professor de música. Em Abril desse ano, a família viveu numa fábrica de tijolo com doze mil outros judeus, e um mês depois foram todos levados para Auschwitz. Edith era apenas uma adolescente.


Hoje, sabemos o que aconteceu nos campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial. Sabemos dos horrores, das atrocidades desumanas e da mais pura maldade que sobrevoou os campos. Dos piores (se não o pior), mais maldosos e mais vergonhosos atos da história que a raça humana já viu acontecer? Diria que sim.


Edith foi separada da mãe, que acabou por ser morta numa câmara de gás. A primeira e derradeira razão pela qual podemos contar com a inteligência e dádiva que é Edith Eger hoje, é o facto de que Josef Mengele soube que ela dançava ballet, lhe pediu para dançar, ela dançou, o monstro gostou e concedeu-lhe passagem para o campo e não para a câmara de gás. Até lhe deu um pedaço de pão, que Edith depois partilhou com o resto das raparigas com quem partilhava espaço.


"Não sabemos para onde vamos, nem o que vai acontecer, mas uma coisa que ninguém nos pode tirar é o que temos dentro da nossa mente" *


Auschwitz não foi o único campo por onde Edith passou, e não foi o único campo onde quase viu o seu fim. Foi forçada a fazer uma caminhada da morte com a sua irmã Magda (que felizmente reencontrou), e quase morreu de exaustão, não fosse uma rapariga com quem tinha partilhado o pão, meses antes, tê-la reconhecido e ajudado a caminhar. No ano de 1945, quando os soldados americanos invadiram o campo onde estava, Edith foi deixada entre os cadáveres, no chão, assumida como "mais uma". Para sua boa fortuna, um soldado viu a sua mão mexer e voltou para trás, salvando-lhe a vida. Não foi fácil, pois Edith pesava apenas 32kg, tinha as costas partidas, febre da tifóide, pneumonia e pleurisia. A recuperação foi longa, mas Edith deu todos os passos para ser uma das mulheres mais resilientes que pelo nosso Mundo caminham.


Depois da guerra, Edith mudou-se para a Checoslováquia, onde conheceu o seu futuro marido, e em 1949 mudaram-se para os Estados Unidos, onde formaram família. Vinte anos depois, Edith tirou um curso e fez um doutoramento em Psicologia. Especializou-se em stress pós-traumático, e acabou por abrir uma clínica em La Jolla, na Califórnia enquanto exercia também como consultora para o exército e a marinha dos EUA (o que, ainda hoje, faz).


Hoje, tem 94 anos e é uma das mulheres mais inteligentes que já tive o prazer de ler. É uma pessoa que passou pelo maior horror que a nossa História conta, e por isso tem muito que nos ensinar.


"Não existe uma hierarquia no sofrimento. Não há nada que faça com que a minha dor seja pior ou melhor que a tua" *


A Dra. Edith sabe o que é sofrer. Sabe o que sentir a vida a fugir-lhe do corpo e sabe o que é continuar por cá. Reconhece o valor da vida, e usa o seu próprio trauma para ajudar os outros.


Quando li o seu livro, A Bailarina de Auschwitz, em 2018, estava (como sabem) a passar por algo que não conseguia compreender. Não estava a saber lidar comigo mesma nem com as emoções que estava a sentir. Foi uma altura da minha vida em que, por um lado, estava num sítio que adorava e que me estava a levar por um caminho que me ia aproximar mais de mim mesma, mas por outro estava completamente perdida e sozinha. Ler o livro ajudou. Ajudou a trazer perspetiva, ajudou a encarar a dor de outra forma. Não me mostrou como lidar com o luto - acho que isso é algo impossível de se ensinar tendo em conta que todos passam por ele de maneira diferente, mas mostrou-me variadíssimas maneiras de olhar para a dor com carinho, e não como se fosse uma sombra que me mantém em baixo.


"As nossas experiências dolorosas não são uma responsabilidade — são uma dádiva. Dão-nos perspetiva e significado, uma oportunidade para encontrar o nosso propósito único e a nossa força" *


Edith está no topo das razões pelas quais comecei a Heróis sem capa, e estava mais do que na altura de a trazer para aqui, de lhe prestar uma homenagem e de vos ensinar o seu nome (e contar a sua história, claro). Tenho pensado muito nas suas palavras, e senti que era um sinal. Era o momento de a eternizar aqui no projeto e de lhe dar um lugar na equipa.


Se não por todas as razões possíveis e imaginárias, pelo menos que seja porque me ajudou a lidar com a dor de uma maneira que contrariava tudo o que sempre me ensinaram, Edith é uma heroína real, de carne e osso, que por aí caminha e que está constantemente a encher-me o feed das redes (e a minha estante) de sabedoria.


Espero que se lembrem da Edy sempre que a vida vos quiser deitar abaixo. Abracem a dor, sintam tudo o que tiverem que sentir. Amanhã é outro dia, e seja melhor, pior ou igual, não deixa de ser uma nova página em branco. Deixo-vos com mais duas citações dela, porque não consigo escolher qual a melhor para rematar este post, e são as duas brilhantes:


"O tempo não cura. É o que tu fazes com o tempo que cura. Curar é possível quando escolhemos arcar com responsabilidades, quando escolhemos arriscar e, finalmente, quando escolhemos libertar a ferida - deixar o passado ou a dor ir" *


"Estás aqui! No presente sagrado. Não posso curar-te — nem a ninguém — mas posso celebrar a tua escolha de desmontar a prisão dentro da tua mente, tijolo a tijolo. Não podes mudar o que aconteceu, não podes mudar o que fizeste ou o que te foi feito. Mas podes escolher como vives agora. Meu precioso, podes escolher ser livre." *


Até breve, heróis!




Links úteis:

— Website da Dra. Edith Eger: https://dreditheger.com/

— Instagram da Dra. Edith Eger: https://www.instagram.com/dr.editheger/

— Livro "A Bailarina de Auschwitz": https://www.wook.pt/livro/a-bailarina-de-auschwitz-edith-eger/22169012

— Livro "O que aprendi em Auwschwitz": https://www.wook.pt/livro/o-que-aprendi-em-auschwitz-edith-eger/25042983


* Edith Eva Eger, in "The Choice: Embrace the Possible" (2017). Traduzido de inglês.






40 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Monty

Miky