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Olá, meus heróis!


Chegou a hora... Chegou a hora de vos apresentar um novo Herói do Mês, e este março trago-vos uma pessoa que já não caminha connosco. Parecendo que não (e isto sou eu a falar para mim mesma), aquele período pós-natal com tanta gente a morrer por causa de erros ridículos e gente cujo cérebro decidiu desligar, afetou-me emocionalmente. Geralmente consigo ver a "big picture" na maioria das situações. Consigo compreender os sacrifícios que são necessários fazer para o "bem maior", entendo que as coisas que não posso fazer agora de boa consciência serão feitas mais tarde e com mais vontade, mas não sei... Tivemos ali uns dias em que senti o sufoco do nosso sistema nacional de saúde e, mais do que isso até, das famílias que não se puderam despedir dos seus. Pessoas de todas as idades. A verdade é que, sinceramente, acho que a grande maioria de nós perdeu alguma coisa com esta pandemia. Pessoas, saúde, oportunidades, emprego, dinheiro, casa, enfim... E enquanto que transmitir energias positivas e dizer que vamos ficar bem ajuda (até certo ponto), sinto que, pelo menos para mim, isso deixou de resultar. Estou, desde janeiro, com pequena grande pedra rotativa atrás de mim (tipo aquela do Indiana Jones), ansiosa e triste, que não para de rolar, e acho que grande parte se deve ao facto de, constantemente, tentar contrariar os efeitos secundários de tantas perdas inesperadas - as minhas e as de quem me rodeia.


Foi neste sentido que, quando me abordaram para falar sobre quem vos trago aqui hoje, decidi que queria prestar esta homenagem, e que a hora era agora. Quero concentrar, neste herói do mês, em simultâneo, a mágoa que resulta de perder alguém/alguma coisa que é verdadeiramente importante para nós e o facto de que não é perder uma luta que faz com que deixemos de ser heróis.


Vou partilhar a escrita este post com pessoas que cruzaram tempo com ele e que são testemunhas da marca que este herói deixou no mundo. Eu não o conheci, mas conheço a Patrícia, heroína amiga minha e sua prima - o elo que nos une. Como ela, compreendo o que é ver alguém partir demasiado cedo, e toda a agoniante confusão em que somos deixados quando isso acontece. Compreendo também o quão terapêutico é prestar uma homenagem deste tipo ao heróis que vão, mas cujo espírito não nos abandona. Este herói do mês tem tantas camadas...


Apresento-vos o Beny. Inspirado num rapaz cujo coração era vivo, alegre e carinhoso. Bernardo Soares não viveu uma vida longa, mas viveu uma vida preenchida. Desde sempre que dedicou todo o tempo que tinha ao outro - desde passar intervalos na biblioteca da escola a ajudar um grupo de alunos com necessidades especiais a sentar-se com os idosos da sua aldeia e ficar a conversar durante horas. Dedicar tempo a conhecer quem o rodeava, fosse quem fosse. Sabem aquelas pessoas que passam pela nossa vida e são um verdadeiro raio de sol? Um arco-íris até? Sei que sabem do que estou a falar. Pois bem, o Bernardo era essa pessoa.




"Tenho pelo Bernardo muito carinho e amizade.

Acompanhei-o nos seus 13, 14, 15 anos na sua escola, a Teixeira Lopes. Menino muito terno, muito preocupado com ele e com todos os outros, de lágrima fácil.

Estudava com colegas na biblioteca nos seus tempos livres e vibrava com os êxitos deles.

Gostava de ter boas notas, pelo seu brio pessoal mas também, como me disse um dia, pela alegria que ia dar ao Avô.

Mais tarde, continuando eu na Teixeira Lopes, fomos acompanhando o Bernardo. Quantas vezes ouvi: 'sabes, o nosso Bernardo …' , 'o meu Bernardo …'!! Ficou um pouquinho dele em todos nós!

Obrigada Bernardo! Gosto muito de ti!"

Leonor (professora)


"Lembro o Bernardo bastante agradavelmente. Conheci-o na escola Dr. Costa Matos, na altura a escola chamava-se Teixeira Lopes. Foi um grande amigo, brincávamos muitas vezes no recreio, tivemos muitas gargalhadas juntos, excelentes momentos juntos. Como estudante, era bastante aplicado e inteligente, ele queria sempre fazer melhor. Tinha uma grande paixão por tudo o que fazia.

Apesar de ter falecido, levo do Bernardo lições para a vida: tentar encarar a vida com paixão e tentarmos ser a melhor versão de nós mesmos. Foram coisas que ele me transmitiu quando estava vivo. É importante não esquecê-las, o Bernardo não as esqueceria."

Leão (amigo)


"Há poucas palavras que sejam capazes de descrever o Bernardo, o menino que todos gostavam, simpático e amável com todos!

Com uma incrível capacidade de brincar com uma criança de 2 anos da mesma forma que dava dois dedos de conversa com um velhinho na aldeia.

Voltava para a aldeia todas as férias da escola, e era isso que o fazia mais feliz.

Éramos um grupo de quatro, nos dias mais calmos, mas nos dias em que todos podiam brincar na rua, chegávamos a ser dez , todos de idades diferentes. Brincávamos muito e quando as ideias faltavam, ficávamos aborrecidos mas era ele que nos mostrava que nos pequenos pormenores também havia encanto e diversão. O Bernardo, tão sábio... Todos os dias transmitia novos ensinamentos a quem o rodeava , desde o amor pela natureza, ao carinho e respeito pelo próximo. Ensinou a todos os amigos a identificar as diferentes constelações do céu.

O Bernardo, o amigo , só estava feliz quando todos estavam bem, mesmo quando as guerras pelo último gelado não eram com ele. O amigo protetor e mais paciente...

O Bernardo, aquele que nunca abandona um amigo, e é por isso que todos sabemos que estás aqui, 'estás apenas atrás da cortina'!"

Xana (amiga)




O Bernardo foi apanhado de surpresa por uma leucemia linfoblástica aguda b no ano de 2014, e lutou contra ela até ao último dia da sua vida. Foram 6 anos de entradas em remissão, transplantes de medula óssea, esperança e reincidências do cancro. Foram palavras de médicos desoladoras e recuperações milagrosas. Anos duros, como não podia deixar de ser; uma verdadeira montanha-russa. No entanto, durante todo esse tempo, o Bernardo não se queixou. Não resmungou. Fez tudo com boa vontade e um sorriso estampado na cara. Inclusivamente, enquanto estava internado no IPO do Porto para fazer os seus tratamentos, o tempo que tinha livre era passado com as crianças que ali estavam internadas também, ajudando-as a comer quando menos tinham vontade e a fazer com que o tempo parecesse mais leve (e passasse mais rápido).



"O Becas para mim é um moço 6 estrelas de 0 a 5. Uma jóia de ser humano. Um miúdo muito à frente para o seu tempo em comparação com os seus semelhantes.

Sem choros, nem 'lamentos', dado que não quer ser recordado nesses moldes.

Justifico falar no presente, visto que enquanto a memória estiver viva, ele para nós também o estará."

Daniel (amigo)


"Quis o destino que me cruzasse com uma alma de sorriso permanente, de alegria contagiante e de energia invejável... Sim, falo do Bernardo! Aquele jovem que muito simpaticamente acompanhava a sua prima, junto do seu grupo de amigos, permitindo-me conhecer este lutador e acompanhar todo o seu caminho, pelas doces palavras da Patrícia.

E por novas voltas do destino, de novo me cruzo com o Bernardo, naquela que foi a sua casa forçada, durante alguns anos, a Pediatria do IPO. Medos e receios naturais do ser humano, que os senti, naquele reencontro, repetindo e repetindo na minha cabeça, como irei rever aquele menino grande, tão simpático, tão alegre, numa fase em que se pensaria que a sua batalha estava perto do fim... Cabeça a minha, como poderia encontrar outra coisa senão o nosso Bernardo de sorriso no rosto e a trocar piadas para me contagiar também com o seu sorriso! Dizem que cada pessoa tem um papel a desenrolar aqui neste mundo e o querido Bernardo deixou-nos o exemplo de coragem, luta, persistência e mesmo que não seja para ganhar que o façamos de sorriso no rosto!

És um herói, Bernardo!"

Filipa (voluntária no IPO)




O que mais me fascina na história do Bernardo é a compaixão que o caracterizava. A constante que lemos nos testemunhos de quem o abraçou é essa. Compreendemos que, ainda que o tempo tenha sido curto, haverá muita gente que nunca o esquecerá e que, por causa dele, sente que a sua vida mudou de rumo. Esta ideia comove-me: o facto de, com pequenos gestos, podermos fazer a diferença no dia e/ou na vida de alguém.




"O Bernardo tinha um olhar que falava. E esse olhar explicava-nos o mundo de uma forma diferente, com menos barreiras e mais esperança. Talvez por isso tenha lutado sempre de coração aberto, nas vitórias e nas derrotas, e com isso deixou-nos um testemunho singular a transbordar de vida."

Silvino (amigo)


"O querido Bernardo, sinto que o conheci num segundo e no segundo seguinte ele nos deixou, e ainda assim ele teve a capacidade absurda de entrar no meu coração e arranjar um lugar cativo. É o exemplo perfeito de coragem, de força, de alegria. É impossível pensar no Bernardo sem ser a sorrir. É impossível pensar no Bernardo e não ver a vontade de levar tudo à frente, de fazer toda a gente rir à gargalhada. É impossível pensar no Bernardo e não recordar um miúdo guerreiro e um exemplo a seguir.

Bernardo, és um herói! Brilha bem forte desse lado e daqui a uns anos temos encontro marcado."

Ana (amiga)


"Vi o Bernardo crescer e ele a mim. Não falávamos, nem nos víamos todos os dias, mas sempre que estávamos juntos parecia que o tempo não tinha passado. Havia sempre espaço para grandes gargalhadas e nunca espaço para tristezas, principalmente quando a vida decidiu ser injusta. Recordo o Bernardo sempre com um sorriso no rosto e com um olhar de ternura e inocência para as coisas simples da vida. Nunca me esquecerei do belíssimo texto que me escreveu quando me licenciei. Quando terminei pensei "Bernardo não imaginava que tinha causado tanto impacto na tua vida" . Fez-me pensar que muitas vezes pequenos gestos e palavras são muito mais importantes para alguém do que imaginava. Ele deu-me uma lição de vida e de compaixão. Sem dúvida, que o Bernardo é um herói."

Sílvia (amiga)




O Bernardo queria seguir medicina, o que faz todo o sentido (pelo menos para mim), tendo passado toda a sua vida a concentrar a sua energia em quem o rodeava. Estudou para isso, mas (como acontece a muitos) não conseguiu entrar nesse curso. Entrou antes em Enfermaria, o que sinceramente acho que até se adequa melhor à pessoa que me parece que foi. Poderia estar mais concentrado e atento aos doentes, podendo ouvi-los e cuidar deles com o seu coração.




"O Bernardo é um primo e uma das pessoas mais lutadoras, bondosas, luminosas e simples que já alguma vez conheci. Tem um coração do tamanho do mundo, capaz de albergar todos os que estão à sua volta. Ele é um verdadeiro exemplo para mim. Falo no presente porque para mim estará sempre cá. O meu obrigado, meu Bernardo."

Lucas (primo)


"Pensar no Bernardo é não saber precisar a primeira vez que o vi nem se quer quando nos conhecemos, mas é pensar nos verões, na Abobeleira, nas noites no parque, nos passeios no monte, das idas à Mila, das tardes na Santinha, das escondidinhas no adro da igreja, e não imaginar nenhuma história sem ele estar presente. Em pequeno tagarela (e dificilmente alguém o superava), com uma capacidade de conseguir arranjar uma solução ou apenas uma teoria fosse qual fosse o problema, dele ou de outra pessoa qualquer. Mas o Bernardo cresceu, cresceu e passou a demonstrar um amor e um orgulho por este cantinho que é a nossa aldeia imenso, capaz de envergonhar qualquer um que aqui nasceu, vive e viveu, mas que ainda hoje nos faz olhar para cada coisa com outros olhos. Não era só o amor à aldeia que vivia no Bernardo, era também um amor pela vida e pelos dele, uma força de viver inigualável, o Bernardo era ar fresco. E hoje, não há uma única vez que passe em todos os sítios onde tanto brincámos e fomos inocentemente tão felizes, e não me lembre das gargalhadas, as icónicas e imensas gargalhadas do Bernardo, e é isto que ele será sempre Imenso."

Mariana (amiga)




Esta abordagem ao herói do mês é um bocadinho diferente do que vos costumo trazer, eu sei, mas acho que fez bastante sentido. O Bernardo, para mim, representa tantos que caem antes o que seria expectável ser a sua hora. Representa a força na luta contra o inesperado, da mesma maneira que representa um medo incontrolável que me assombra. Quis deixar marcado, aqui no projeto, o meu imenso respeito por todos os heróis que não "vencem a batalha", que não "matam o monstro", e a minha compaixão e empatia por todos os que cá ficam e que vivem com a perda. E, para terminar este post em grande, deixo-vos as palavras da Patrícia, quem o conhecia melhor, para que fique reforçado o legado deixado pelo Bernardo:




"Falar no Bernardo é fácil. Fácil porque ele é a conjugação do verbo sorrir no presente do indicativo. Porque o Becas, como quase todos lhe chamamos, não gostava de ver ninguém triste, não gostava de maldade nem de injustiça. Assim sendo, vou falar nele e naqueles que os dois juntos admirávamos.

Para começar, o Bernardo... todo ele é mistura de poesia daquela bonita. Mas que nem todos têm sorte de conhecer, de ler as entrelinhas. É o Alberto Caeiro que via o mundo com inocência e em tempos quis também ser um guardador de rebanhos para ir viver na casinha da nossa aldeia, no mundo dele, via o mundo com a inteligência concreta Álvaro de Campos, mas com a vida e o tempo, aprendeu a ser um Ricardo Reis e a viver a máxima do “carpe diem”. Quis o destino que ele, para completar tudo, se chamasse Bernardo Soares, não fosse o nome dos antepassados da nossa família mas também do heterónimo mais querido do poeta que tenho abordado, que no meio de tantos desassossegos encontrou sempre uma forma muito dele de nos fazer rir, sorrir e viver tantas alegrias. Tínhamos o pacto de não falar da doença os dois, por isso tenho que cumprir. Por isso o que eu testemunho e tenho a certeza é que tenho muita, muita sorte por ter um parceiro de segredos, de cumplicidades, da vida! E a falta que me faz não se compara a nada, porque nada pode ser comparável. Sei que ele brilha muito la em cima. Sei que ele é o arco íris que aparece sempre que os dias estão tristes. Ele amava como o amor pede para ser amado. E isso, nem o Pessoa conseguia fazer, por mais que o escrevesse, Bernardo!"

Patrícia (prima)




Obrigada, heróis! Até breve :)




Links úteis:

— Leucemina Linfoblástica Aguda: https://pt.wikipedia.org/wiki/Leucemia_linfobl%C3%A1stica_aguda

— Seja dador de sangue, IPO Lisboa: https://www.ipolisboa.min-saude.pt/porque-ajudar-o-ipo/seja-dador-de-sangue/

— Dar sangue, IPO Porto: https://www.ipoporto.pt/dev/wp-content/uploads/2017/08/TRIPTICO-DAR-SANGUE_issu.pdf

— Tudo sobre dar sangue: http://dador.pt/



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