Leey

Olá, olá, heróis!


Alguém que me explique como é que já estamos em outubro. É assustador o quão depressa passa o tempo... Espero que estejam bem, a recuperar a vossa normalidade aos poucos :)


Cá estou eu, neste décimo quinto dia do mês de outubro, para vos trazer mais um herói. Uma heroína, na verdade. Ultimamente, principalmente para quem usa as redes sociais diariamente, ouve-se muito falar de uma série coreana da Netflix: Squid Game. É uma série para adultos, com conteúdos violentos, que, a meu ver, explora uma realidade dolorosa (e pouco discutida) dos coreanos: a dívida pública. Vale a pena ver, se algum de vocês ainda não viu. Tenham apenas em atenção se conseguem lidar com violência explícita - se for demasiado para vocês, não vejam, podem com certeza estar a par do que acontece através dos milhares de artigos que já se escreveram sobre a série. E, por amor a todos os heróis, não vejam esta série com/ao pé de crianças.


Ver esta série deu-me o empurrão que precisava para vos trazer uma heroína cuja história me apareceu no feed do YouTube há já uns bons anos, tendo em conta que uma das personagens principais estava a passar pelo que ela também passou. Sem mais demoras, e porque isto de falar com rodeios é complicado, apresento-vos a heroína do mês de outubro: Leey (lê-se "Li").


Criei a Leey para vos poder contar a história de Lee Hyeon-seo (Lee é o nome de família, Hyeon-seo é o nome próprio), uma mulher que nasceu na Coreia do Norte e que, ainda que quando fosse pequena adorasse o seu país, rapidamente se apercebeu de que algo de muito errado se passava. Mais conhecida como a mulher dos sete nomes (devido ao livro que escreveu), Heyon-seo é uma ativista e desertora (uma palavra horrível que descreve um ato de extrema coragem) que não só conseguiu fugir como conseguiu que a sua família escapasse também aos horrores ditatoriais do seu país.


A história da Heyon-seo começa em 1980, no dia do seu nascimento. Quando era pequena, a heroína tinha muito orgulho no seu país - um sentimento que se manteve até ao dia em que viu uma execução pública, com apenas sete anos. A sua família não era pobre, mas após a crise de fome dos anos 90, acostumou-se a ver morte e pobreza à sua volta.


A nossa heroína conseguiu sair da Coreia do Norte e passar para a China, em busca de seguir um sonho antes de ir estudar para a universidade. Fê-lo sozinha, atravessando o um rio gelado e dependendo da simpatia de um guarda da fronteira. Para conseguir escapar à prisão e ao castigo das forças armadas da Coreia do Norte, teve que ser acolhida por familiares na China e fazer-se passar por uma rapariga chinesa - algo que chegou a ter que provar, fazendo um teste (que passou graças à insistência do seu pai em aprender os caracteres chineses).


Após 10 a viver na China como uma fugitiva e imigrante ilegal, ganhou coragem para emigrar para a Coreia do Sul, onde contou a sua história e arriscou tudo. Se, entre a Coreia do Sul e a China, se confirmasse que ela não era, de facto, uma cidadã chinesa, seria deportada de volta para a Coreia do Norte e tudo teria sido em vão. Felizmente, o seu caso é um caso de sucesso, e conseguiu até que a ajudassem a procurar um sítio para ficar em Seoul (onde agora reside).


"Comecei com uma mistura de sentimentos de medo e entusiasmo, mas reestabelecer-me foi muito mais desafiante do que eu estava à espera. Percebi que havia uma grande lacuna entre a Coreia do Norte e do Sul, desde a formação educacional até as diferenças culturais e linguísticas. Nós somos um povo racialmente homogéneo por fora, mas por dentro tornámo-nos muito diferentes como resultado dos 63 anos de divisão" — Traduzido do artigo VIDA DO OUTRO LADO: Uma perspetiva Norte-Coreana da vida na Coreia do Sul, de Lee Heyon-seo.


Quando se viu finalmente instalada na sua vida na Coreia do Sul, com todas as dificuldades que advém de preconceito e reestabelecimento num país novo, estava na hora de trazer a sua família para ao pé de si. Lee soube que a polícia norte-coreana estava a intercetar dinheiro que ela tinha enviado para a sua família e que estavam a ponto de ser desertados para o meio do nada. Foi aí que decidiu voltar para os ir buscar. Encontraram-se na fronteira da China, e fizeram milhares de quilómetros, quase sendo apanhados por várias vezes - inclusivamente uma em que a nossa heroína teve que mentir ao um polícia e dizer que a sua família era surda-muda, pois não sabiam falar chinês e ela não podia permitir que fossem apanhados ali.


Mas as coisas não podiam correr bem até ao fim. Na fronteira com Laos, a família foi capturada pela polícia e Lee teve que pagar uma multa e um suborno para que, um mês depois, fossem libertados. Quando conseguiu voltar a reunir-se com eles, em Vientiane, a família foi novamente presa, tão perto da embaixada da Coreia do Sul que é dolorosamente irónico. O desespero instalou-se e Lee viu-se numa situação impossível: não tinha dinheiro para pagar subornos e não conseguia ajuda para conseguir libertar a sua família. Estava prestes a desistir, sem forças e sem esperança, quando um verdadeiro herói australiano, Dick Stolp, se cruzou com ela, ouviu a sua história, e lhe deu o dinheiro que precisava para salvar a sua família. Foi assim que os conseguiu libertar, por causa da gentileza de um estranho.


A nossa heroína defende que esse encontro lhe mudou a visão que tinha do mundo, que havia pessoas boas e que a vida é um bem precioso. Se esta não é uma situação que devolve fé na Humanidade, não sei o que é. É este tipo de bondade entre estranhos e o apoio internacional que podem dar a pessoas como a Heyon-seo a esperança que precisam para sair de uma situação semelhante.


Hoje, Lee vive e trabalha em Seoul. A sua família vive em paz, também na Coreia do Sul. Escreveu um livro, cujo link vos deixo em baixo e é uma mulher de armas, que vive com o seu trauma e tem uma história brutal que nos deixa a pensar no que um pequeno gesto pode alcançar.


Espero que tenham gostado de conhecer a história da Lee Heyon-seo, uma heroína dos tempos modernos e que fez tudo o que estava ao seu alcance (talvez até mais do que isso), para salvar a sua família. E quando tudo estava a dar para o torto, precisou apenas de uma mão generosa, a mão certa, para conseguir sair definitivamente da sua situação. Um testemunho para não esquecer.


Até breve, heróis!






Links úteis:

— A minha fuga da Coreia do Norte, Lee Heyon-seo, TED (em inglês)

— Squid Game: A crise da dívida pública que está a afetar a Coreia do Sul e que inspirou a série, Naomi Joseph, THE CONVERSATION (em inglês)

Liberdade, sanções e gelado norte-coreano: Entrevista com a desertora Hyeon-seo, Charlie Campbell, TIME (em inglês)





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