Atualizado: Jan 23

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Chegou o momento, meus heróis. Abrimos, final e oficialmente, o ano de 2021, e fazemo-lo da maneira que melhor sabemos: com o nosso primeiro herói do mês. Que levante a mão quem está preparado para conhecer mais um herói!


Hoje trago-vos alguém que, para a grande maioria, passa despercebido. Alguém que pegou na sua situação pessoal e familiar, fez dela uma carreira, e agora é um aliado fundamental para uma comunidade. Alguém que representa tantos cuja importância não se mede, nem de longe nem de perto, a partir do lugar que preenchem nos nossos ecrãs. E é português :)


Apresento-vos o Orly, o meu herói do mês de janeiro. O Orly é um herói fluente em língua gestual. É um herói que une todos aqueles que, seja pela razão que for, não podem/conseguem ouvir. É uma personagem inspirado num herói real, chamado Luís Oriola. Talvez o nome não vos diga muito, tenho que confessar que a mim não me dizia até o ir procurar, mas a sua cara é-vos bem familiar, isso prometo. O Luís, em conjunto com outra heroína, a Sofia Figueiredo, têm sido quem traduz toda a informação relativa à pandemia que nos envolve para a comunidade não ouvinte portuguesa. Incansáveis, a meu ver, e com um trabalho de extrema importância - ainda que, e corrijam-me se estiver enganada, muitas vezes ignorado/negligenciado.


Este herói é natural do Montijo e o seu percurso profissional define-se pela sua licenciatura em Tradução e Interpretação de Língua Gestual Portuguesa (LGP) e pelo seu extenso e árduo trabalho como intérprete: desde o seu tempo na Federação Portuguesa das Associações de Surdos (como trabalhador independente), à sua posição no Instituto Nacional para a Reabilitação (na função pública - Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social) - sendo nesse âmbito que se deu a colaboração com o Ministério da Saúde e a Direção Geral de Saúde, que por sua vez fez com que o víssemos com tanta frequência nos nossos ecrãs desde o início da pandemia.


A surdez é algo que faz parte do seu normal, tendo crescido com vários familiares não ouvintes - os seus pais, irmão mais velho, tio e avós (da parte da mãe) são surdos. Esta situação fez com que, à medida que ia crescendo, fosse aprendendo a língua. Tornou-se, eventualmente e de uma forma bastante natural, a ponte de interpretação entre os elementos da sua família que ouviam e os que não. Hoje, casado com uma mulher surda (quem inspirou a aprender LGP, pois quando se conheceram, a mesma não sabia comunicar dessa forma - lia lábios e vocalizava), diz-se, orgulhosamente, bilingue.


Motivado pela sua experiência pessoal, fazer da interpretação a sua carreira profissional parece-me, na minha opinião, uma escolha nobre. Não consigo encontrar uma melhor maneira de deixar uma marca no mundo do que a fazer a diferença usando algo que nos acompanha desde sempre. Algo que sabemos fazer com o coração e algo que compreendemos ser tão necessário. A sua profissão já o levou aos mais variados cenários: teatros, missas, tribunais, salas de formação e até mesmo ao Festival da Canção.


Agora eis umas coisinhas que eu aprendi ao pesquisar sobre o Luís: primeiro, diz-se língua gestual e não linguagem gestual. Linguagem é um sistema de, por exemplo, símbolos que funcionam como signos. Uma língua é um sistema de signos, ordenado, estruturado e arbitrário, que funciona como um meio de expressão (neste caso, da comunidade surda). Depois, língua gestual não é universal. Vá, ok, eu disso sabia, mas não sabia que a que é usada em Portugal tinha sido importada da Suécia. Foi importada como, perguntam vocês e muito bem? Ora, um educador sueco, chamado Pär Aron Borg, trouxe o alfabeto manual do seu país para a Casa Pia de Lisboa, no ano de 1823, a mando do rei D. João VI. Este alfabeto manual (aquele que, por alguma razão, me lembro de me ensinarem algures no tempo - não sei quando), é apenas utilizado quando se quer soletrar o nome próprio de alguém, ou de um lugar ou quando se precisa de soletrar uma palavra que não se conhece. A Língua Gestual Portuguesa é uma língua de símbolos, de gestos, de movimentos com as mãos, cada um deles correspondente a um conceito.


Uns números: a Associação de Tradutores e Intérpretes de Língua Gestual Portuguesa diz que, em Portugal, existem cerca de 372 pessoas licenciadas na área. Dessas, apenas 41 são homens. O que esses números dizem, não tenho a certeza, parecem-me poucas pessoas no geral... A existência de profissionais nesta área é fundamental para se conseguir comunicar com a comunidade surda - que tem direito à acessibilidade e ao acesso à informação, como qualquer comunidade. Imaginem o que seria, no meio da situação em que nos encontramos, ser impossível passar informação crucial para a proteção das pessoas, por falta de um intérprete profissional. Como diria o Luís, em entrevista:


"Não é suposto o cidadão surdo andar a mudar de canal à procura daquele que está a apanhar o intérprete, ele tem de estar em todos. Nas conferências de imprensa da DGS é mais fácil porque nos posicionamos no meio, mas ainda no outro dia a RTP, que é a televisão pública, conseguiu não captar imagens do intérprete durante toda a comunicação. Damos um passo para frente e dois para trás, é altamente frustrante" (fonte aqui).


Claramente, proporcionar a acessibilidade à informação continua a ser uma luta. E eu sei, eu sei que ser intérprete é o trabalho deste herói que vos trago aqui hoje. Compreendo que não esteja a trabalhar "mais", mas a verdade é que foi com esta pandemia que me apercebi do quão importante é o seu lugar no ecrã. Um lugar que vai para além da janelinha no canto (que, por acaso, aprendi que deveria ocupar um sexto do ecrã para uma boa visibilidade e acessibilidade à mensagem, mas que tal não é o que se verifica), que merece um lugar no centro da transmissão - como temos visto nas emissões da DGS. Ter um intérprete visível e bem localizado é uma maneira de garantir que a informação passa a quem tem o direito de a receber. Outra seriam legendas - algo talvez mais acessível para um maior número de pessoas e locais, tendo em conta que nem toda a gente consegue comunicar através da LGP, mas para já, o que se pede e o que deveria ser proporcionado, é um lugar visível e focado, para que o Luís, a Sofia, a Alexandra Ramos, o Nuno Santos Calado, e muitos outros possam cumprir com a sua missão.


O Luís é, para mim, um herói, porque transformou uma parte autenticamente sua em algo que permite a muita gente estar ao corrente do que se passa no país e no mundo. É alguém que serve de ponte entre alguém que ouve e alguém que não. Ajuda e luta por que amanhã, Portugal seja um país mais acessível e que considere todos os que dele fazem parte. Inspirou-me, que mais posso eu dizer? Saber o seu nome (e os dos outros intérpretes que mencionei), deu-lhe volume e trouxe-me uma dose de realidade que não sabia que precisava de encarar. E agora não consigo deixar de procurar pela janelinha no ecrã com alguém a falar uma língua que eu não compreendo, mas que espero no futuro compreender.


Espero que tenham gostado de conhecer o Luís e, consequentemente, o Orly, a sua versão fictícia na equipa Heróis sem Capa. Achei que era uma boa maneira de abrir o ano: com alguém que dá tanto de si, todos os dias, e que demasiadas vezes passa despercebido.


Como sempre, em baixo deixo-vos uma série de links para lerem bons artigos e ficarem a saber um pouco mais sobre tudo o que vos apresentei aqui hoje.


Até breve, heróis!






Links úteis:

— "Língua Gestual Portuguesa: Uma língua 'como qualquer outra' que ainda não é vista como tal", por João Malheiro, JPN: https://www.jpn.up.pt/2020/04/23/lingua-gestual-portuguesa-uma-lingua-como-qualquer-outra-que-ainda-nao-e-vista-como-tal/

— Língua Gestual Portuguesa (Wikipedia): https://pt.wikipedia.org/wiki/L%C3%ADngua_gestual_portuguesa

— "A língua gestual não é universal e a que é falada em Portugal tem origem Sueca", por Jéssica Santos, RFM: https://rfm.sapo.pt/content/8652/a-lingua-gestual-nao-e-universal-e-a-que-e-falada-em-portugal-tem-origem-sueca

— "O que todos devíamos saber sobre língua gestual (em dez pontos)", por Mariana Correia Pinto, P3: https://www.publico.pt/2017/11/14/p3/noticia/o-que-todos-deviamos-saber-sobre-lingua-gestual-em-dez-pontos-1828846

— "Luís e Sofia são a ponte entre os surdos e a epidemia", por Mauro Gonçalves, Observador: https://observador.pt/2020/04/04/luis-e-sofia-sao-a-ponte-entre-os-surdos-e-a-epidemia-se-os-deixarmos-sem-informacao-contribuimos-para-o-nosso-proprio-prejuizo/

— Os mensageiros da comunidade surda em tempos de pandemia, por João José Bica, IPS: http://www.si.ips.pt/ips_si/noticias_geral.ver_noticia?p_nr=7777

— Associação Portuguesa de Surdos: https://apsurdos.org.pt/

— Federação Portuguesa das Associações de Surdos: https://fpasurdos.pt/pt/home

—" Intérpretes da língua gestual: 'Às vezes é preciso esforço para não chorar'", por Catarina Pires, Diário de Notícias: https://www.dn.pt/edicao-do-dia/02-abr-2020/lingua-gestual-portuguesa-as-vezes-e-preciso-esforco-para-nao-nos-desmancharmos-a-chorar-12009693.html

— O tradutor de Marcelo que ensinou a mulher surda a comunicar, por Manuel Carlos Freire, Diário de Notícias: https://www.dn.pt/portugal/o-tradutor-de-marcelo-que-ensinou-a-mulher-surda-a-comunicar-5567970.html

— Como se diz coronavírus em língua gestual? Luís Oriola e Sofia Figueiredo encontraram o caminho, por Hugo Moreira, Ímpar: https://www.publico.pt/2020/07/05/impar/noticia/coronavirus-lingua-gestual-luis-oriola-sofia-figueiredo-encontraram-caminho-1922333






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