Riny

_PT


Saudações, heróis!


Aparentemente é hora de vos apresentar o último herói do mês do ano, e nem sei bem como me deveria sentir em relação a isso... É estranho pensar nisso. Sei, no entanto, que estamos a fechar 2019 com um herói bondoso, corajoso que me deixa muito feliz que agora esteja na equipa. Procedemos à parte em que a conhecemos?


Este mês temos aqui a Riny, a mais recente adição à minha equipa de heróis, inspirada numa jovem mulher que conheci por causa deste projeto e que, desde o momento que nos encontrou, tem sido um enorme porto de apoio e de motivação. Falo-vos da Catarina Ramos Pinto. Não sei se sabem quem é ou não, talvez quem está envolvido no mundo da literatura e dos blogues já tenha ouvido falar dela (o blogue/página do Instagram que gere chama-se "C'est ta lumière, Cat " — deixo os links no final). Para quem tem a sorte de a conhecer, envio-vos um sorriso e um abraço apertado.


Não foi muito depois de ter começado a publicar com mais frequência no Instagram da Heróis que comecei a reparar que havia uma pessoa a comentar quase todas as publicações e que me enviava mensagens de apoio com alguma frequência (o que eu agradeço com todo o coração). Foi no meio de agradecimentos e interesse genuíno nela que acabei por conhecer a Catarina. Costuma-se dizer que devemos sempre ser bondosos para estranhos pois nunca sabemos que tipo de demónios levam consigo, e esta situação não difere disso. Vou deixar o testemunho da Catarina aqui, para que leiam o que eu li e, com alguma sorte, sintam o que eu senti, mas antes quero só dizer que partilhar é um ato de coragem. Nunca me vou cansar de dizer isso. Confiar em alguém a nossa história, os nossos pesadelos e o nosso "lado negro" é, sem sombra de dúvida, algo muito difícil e merece que seja louvado. Uma vez mais, obrigada Catarina (sei que estás a ler isto), por te teres sentido confortável o suficiente comigo para me contares a tua história. E agora, heróis, deixo-vos o testemunho dela.




"Eu tenho OCD, mais conhecida como desordem obsessivo compulsiva, um dos tipos de ansiedade com maiores níveis (os níveis de ansiedade são iguais às perturbações de pânico). A minha ansiedade 'brincava' muito com o meu medo de que acontecesse algo as pessoas que amo. Então acabava por me limitar muito, e eu deixava de me comportar como costumava ou deixava de fazer coisas que queria porque a ansiedade me 'dizia' 'olha se fizeres isto algo de mal pode acontecer a tua família'. Isto já vem de infância, mas foi quando entrei para a faculdade que comecei a sentir os efeitos.


Deixei de fazer as coisas que eu gostava, de viajar, de ler, de escrever (coisas que mais amo), porque tudo me deixava mais alerta e ansiosa. Nos últimos tempos eu andava ansiosa 24/7, e lembro-me de adormecer ansiosa e acordar ansiosa. Ora eu vivia tudo isto escondida de todos. Não dizia a ninguém, escondia que chorava a noite ou que tinha ataques de pânico, as pessoas ficavam zangadas porque eu não saía ou não fazia determinadas coisas com ela. Não foi fácil. Mas no ano passado decidi que já chegava.


Eu estava exausta, chegava a ter ataques de pânico a noite que me deixavam a chorar e gritar contra a almofada e a pedir a minha cabeça para por favor parar! Num dia de Janeiro decidi contar aos meus pais que queria ir a um psiquiatra. Sendo psicóloga, eu já me tinha auto-diagnosticado e já sabia que tinha de tomar medicação antes de fazer outra coisa qualquer. Então marquei e em abril de 2018 tive a minha primeira consulta com um psiquiatra especialista em OCDs. O dia da consulta foi o primeiro dia em que não me senti ansiosa.


Tomo dois tipos de antidepressivos porque a juntar a ansiedade tenho também depressão, mas não me importo de os tomar. A quem digo que tomo dois fica surpreendida mas eu, sabendo o que sei deste tipo de ansiedade, não fico. Em Agosto do ano passado consegui ler o meu primeiro livro depois de um ano e meio parada. Agora já vou em quase vinte livros lidos este ano, já consigo escrever e já consigo ser mais aberta sobre a minha ansiedade. Em Abril deste ano tive também a minha primeira consulta de psicologia, e a minha psicóloga diz que já melhorei tanto que já podemos começar a ter consultas mais espaçadas até dar alta.


Eu sou muito teimosa, por isso sabia que a partir do momento em que me abrisse sobre a minha ansiedade iria fazer de tudo para ficar melhor. Hoje em dia já consigo falar sobre ela, já não tenho vergonha ou medo. Continuo a ter dias em que me sinto super ansiosa ou em que tenho ataques e me arranho de tal forma que fico com manchas de sangue na pele, mas sei que estou a melhorar! Pela primeira vez na vida estou a descobrir quem sou sem ansiedade e isso vale tanto, mas tanto. Depois de 10 anos a viver escondida (como é que eu sabia que era tão boa a jogar às escondidas?), e bom viver finalmente na luz, sem medo das sombras! "




O que quer que eu pudesse escrever nunca seria comparável às palavras de quem luta contra TOC, ansiedade e depressão em primeira mão, e foi por isso que escolhi que lessem as palavras dela. Ler um testemunho assim, pelo menos para mim, nunca é fácil. Por várias razões, o da Catarina ficou comigo, pelo que soube que tinha que a trazer para a minha equipa de heróis. Hoje, continuamos a estabelecer uma amizade e partilhar uma com a outra interesses que temos em comum. Por exemplo, ela agora trabalha com uma associação que ajuda crianças carenciadas a ter acesso a educação chamada Bagos d'Ouro, o que me deixou muito feliz por ela (e orgulhosa)! Aplaudo a coragem dela, a vontade que tem de ajudar os outros, a força com que luta todos os dias (ou a teimosia, como preferirem) e, mais ainda, a transparência. Não há vergonha nenhuma em tomar medicamentos, nem em ter um diagnóstico. Somos humanos, todos diferentes. E sabem que mais? Não estamos sozinhos, por mais que por vezes assim pareça. "Partilho apenas porque acho que pode ajudar alguém", disse-me a Catarina depois de lhe contar que queria que fosse a minha heroína do mês de dezembro. É por isso mesmo que aqui estou/estamos.


Antes de me despedir, deixo-vos com um segmento que quero introduzir em 2020 no Herói do Mês. Quero tornar isto mais pessoal, que conheçam melhor os heróis que vos apresentam e que se sintam mais próximos deles pelo que, sempre que for possível (esperemos que todos os meses), quero fazer três perguntas para rematar bem a apresentação e mostrar um bocadinho melhor o lado real e verdadeiro dos heróis da equipa. Aqui vai:




Mafalda: Alguma vez pensaste em ti como heroína?

Catarina: Para mim os heróis usam uma capa invisível e voam todos os dias para ajudar os que mais precisam. Não têm medo de nada e a sua força não é deste Mundo. Tudo isto são características que ainda estão demasiado longe de mim, ainda estou na fase da “luta” contra a minha mente.


M: Como imaginarias que a tua história/o teu testemunho poderia ajudar alguém que está a passar por algo semelhante?

C: Eu sempre fui muito boa a jogar às escondidas, e nunca imaginei que ele tornasse na sua melhor jogadora em adulta. Vivi no segredo durante muito tempo porque sentia que não tinha direito a sentir o que sentia; porque não queria preocupar por quem eu lutava todos os dias. Mas se há algo que eu tenho vindo a descobrir é que admitir que precisamos de ajuda não é algo mau, muito pelo contrário. Revela uma força enorme, num Mundo em que todos olham para o seu próprio umbigo, admitir que precisamos de alguém para lutar connosco. Por isso algo que sublinho todos os dias é que a saúde mental é algo muito importante e que nunca, nunca deve ser mantida em segredo. Todos escondemos coisas do Mundo, mas a nossa saúde e bem estar nunca devem ser essas coisas. Está na altura de lutarmos por nós próprios, de sermos os nossos próprios heróis.


M: Se tivesses que nomear três pessoas que, para ti, são heróis, quem nomearias e porquê?

C: Os meus pais e irmão - além de serem as minhas pessoas preferidas, ensinam-me desde sempre que todos podemos ser heróis. Acima de tudo, sempre me relembraram que somos seres humanos e que a nossa força não se mede pelo nosso medo ou vulnerabilidade, mas sim pelo nosso acreditar e vontade de mudar e conquistar o Mundo. E, acima de tudo, sempre me ensinaram que por amor vale sempre a pena lutar, mesmo que tenhamos de subir uma montanha a pique. E como diz o Olaf de “Frozen”, “Há pessoas pelas quais vale a pena derreter”. ❤️




Espero que gostem deste novo estilo de apresentação, pois é o que espero transparecer no próximo ano! Ainda volto antes do ano acabar, com uma viagem aos melhores momentos de 2019 e um enorme agradecimento a todos vocês. Até lá, heróis!





_EN


Greetings, heroes!


Apparently it’s time to present you the last hero of the month of the year, and I quite frankly don’t know how I should feel about that… It’s weird to think about it. I do know, however, that we’re closing 2019 with a kind, brave hero that leaves me very happy that she’s on the team. Shall we proceed to the part where we know who she is?


This month we have Riny here, the most recent addition to my team of heroes, inspired by a young woman I met because of this project and who, since the moment she found us, has been nothing but a pillar of support and motivation. I’m talking about Catarina Ramos Pinto. Not sure if you know who she is or not, perhaps those of you who are envolved in the literary blogging scenario have heard of her (the blog/Instagram account she manages is called ‘C'est ta lumière, Cat— I’ll leave the links at the bottom of the post). For those of you who are lucky enough to know who she is, I send you a smile and a warm hug.


It wasn’t long after I started posting more regularly on this project’s Instagram account that I started noticing there was someone commenting on almost every post and sending me support messages somewhat frequently (something I appreciate with my whole heart). It was in the midst of thank you texts and my genuine interest in her that I ended up actually getting to know Catarina. It’s said that we should always be kind to strangers because we don’t know what kind of demons they carry with them, and this situation was just that. I’ll be translating Catarina’s testimony, so that you can read it like I did and, hopefully, feel like I felt, but first I just wanted to say that sharing is an act of courage. I’ll never get tired of saying so. Trusting someone with our story, our nightmares and our ‘dark side’ is, without shadow of a doubt, something very hard to do and that deserves to be praised. Once again, thank you Catarina (I know you’re reading this), for having felt comfortable enough with me and sharing your story. And now heroes, here’s her testimony. Please bare in mind that it is a translated text, since both Catarina and I are Portuguese and, therefore, speak to each other in our mother tongue.




“I have OCD, best known as obsessive compulsive disorder, one of the disorders with highest levels of anxiety (the levels of anxiety are similar to panic disturbances). My anxiety ‘played’ a lot with my fear that something bad would happen to the people I love. That ended up limiting my actions and I stopped behaving like I used to or stopped doing things I loved because the anxiety told me ‘look, if you do this something bad might happen to your family’. This has been with me since my childhood, but it wasn’t until I got to college that I started feeling the effects.


I quit doing things I loved to do, like travelling, reading and writing (what I love to do the most), because everything left me feeling too alert and anxious. In the darker periods I was anxious 24/7, and I remember falling asleep and waking up feeling the anxiety. Well… I lived with all this hidden from everyone. I didn’t speak about it to anyone, I’d hide and cry at night or was having panic attacks, and people started getting mad because I never left my house or do certain things with them. It wasn’t easy. Last year, though, I decided enough was enough.


I was exhausted. I was having panic attacks at night that left me crying and screaming against my pillow and begging my head to please stop! On a January day I decided to tell my parents I wanted to start seeing a psychiatrist. Being a psychologist myself, I had already made a self-diagnose and knew I had to take on medication before doing anything else. I then scheduled an appointment and in April 2018 I had my first consult with a psychiatrist specialised in OCD. That day was the first, in a very long time, that I didn’t feel anxious.


I take two types of antidepressants because adding to the anxiety disorder I also have depression, but I don’t mind taking them. Those who I tell I take medication are usually surprised but I, knowing that about the specifics of this kind of anxiety, am not. In August last year I managed to finally read my first book after a year and a half. Now I’ve read over 20 books this year, can write again and can be more open about my anxiety. In April of this year I also had my first appointment with a therapist, who says I’ve improved a lot and that we can schedule consultations further apart from each other until I eventually get discharged.


I’m very stubborn, so I knew from the moment I’d open myself about my anxiety I’d do anything to get better. Nowadays I can talk about it quite openly, I’m not ashamed or scared of it anymore. I still have days where I’m super anxious and have panic attacks and scratch myself so hard I get red bruises on my skin, but I know I’m on my way to get better! For the first time in my life I’m finding out who I am without anxiety and that’s so meaningful to me. After 10 years living in hiding (who knew I was so great at playing hide and seek?), it’s wonderful to finally live in the light, not afraid of the shadows!”




Whatever I could write could never compare tho the words from someone who fights against OCD, anxiety and depression in first hand, and that’s why I chose for you to read her words. Reading a testimony like this, at least for me, is never easy. For several reasons, hers stuck with me, and I knew I had to bring Catarina to my team of heroes. Today, she and I keep establishing a friendship and sharing with each other interests we have in common. For example, she now works at an organisation that helps kids in need to have access to education called Bagos D’Ouro, which left me very happy for her (and proud too)! I applaud her braveness, her will to help others, her strength to fight everyday (or stubbornness, whichever you prefer) and, even more, her transparency. There is no shame in taking medication, nor in having a diagnosis. We’re all human, all different. And you know what? None of us is alone, despite it feeling like that sometimes. ‘I’m sharing only because I think it could help someone”, said Catarina, after I told her I wanted her to be my December’s hero of the month. And that’s I’m/we’re here.


Before I go, I want to leave you a segment I want to introduce in 2020’s Hero of the Month. I want to make this more personal, I want you to get to know the heroes I bring you better and that you feel closer to them. That’s why, whenever it is possible (hopefully every month), I want to ask three questions to nicely close these presentations and show a little better the real and true side of the team’s heroes. Again, the questions and answers are translated from Portuguese. Here it goes:




Mafalda: Have you ever thought of you as a hero?

Catarina: To me, heroes wear an invisible cape and fly every day to help those in need. They’re not afraid of anything and their strength is out of this World. All of these are characteristics that are far beyond my reach, I’m still in the ‘struggle’ fase against my mind.


M: How would you imagine your story/testimony could help someone who’s going through what you’re going through/something similar?

C: I’ve always been very good at playing hide and seek, and never imagined to become the best player ever when being an adult. I lived in secret for so long because I felt I didn’t have the right to feel what I felt; because I didn’t want to worry those who I fought for every day. But if there’s anything I’ve figured out through all of this is that admitting we need help isn’t something bad, far from it. It shows an enormous strength, in a World where everyone’s staring at their own stomach, admitting that we need someone to fight with us. That’s why I keep saying that mental health is something that’s more important than ever, and should never be dealt with in secret. We all hide stuff from the World, but our health and well being should never be amongst that stuff. It’s time we fight for ourselves, be our own heroes.


M: If you had to name three people who, to you, are heroes, who’d you name and why?

C: My parents and brother - besides from being my favourite people, they always taught me we can be our own heroes. Above all, they’ve always reminded me that we’re human beings and that our strength is measured not by our fear or vulnerability, but for our belief and will to change and conquer the World. And, even above that, they’ve always taught me that, for love, fighting is always worth it, even if we have to climb the highest mountain. And like Olaf from ‘Frozen’ says, ‘there are people worth melting for’. ❤️




I hope you like this new style of presentation, because that’s what I hope to take with me into next year! I’ll be back before 2019 is over, with a trip through the best moments of the year and a huge thank you to all of you. Until then, heroes!


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