Elly, Martsy & Tray

[ PT ]


Olá, heróis!


Espero que estejam bem e que estejam a dar-vos a vocês mesmos um pouco de tempo e espaço para verem que tal está a vossa saúde mental no meio de um mundo que mais parece estar virado do avesso.


Este junho o herói do mês veio mais cedo. Costumo apresentar-vos um herói por mês (à exceção dos últimos dois meses), no dia 15 de todos os meses, e este mês não ia ser diferente. No entanto, devido a tudo o que temos visto acontecer desde o trágico e injusto homicídio de George Floyd à pandemia que resiste em não acalmar o suficiente, senti que era urgente pôr em palavras a posição do projeto (e, por consequência, a minha) em relação a tudo isso.


Começo pelo que me é mais fácil de falar: a pandemia. Os meus conselhos mantém-se: fiquem em casa se puderem ficar em casa; não se aglomerem em grupos grandes, e muito menos em espaços fechados; lavem e desinfetem as vossas mãos frequentemente; apoiem comércio pequeno e local - sejam restaurantes, livrarias, etc, a partir da internet ou não (se o fizerem pessoalmente, tentem ir a uma hora em que o fluxo de pessoas seja mais reduzido e sempre com a vossa máscara e desinfetante na mão); e por último, por favor, mantenham o distanciamento social quando estão a caminhar/correr na rua, o mais que puderem. Parece fácil mas eu sei que não é. Também não vos vou dizer que sou perfeita e que cumpro tudo à risca, nada disso, mas posso-vos garantir que estou a fazer o melhor que posso para proteger aqueles à minha volta que estão mais vulneráveis perante o vírus. Se puder evitar que o apanhem, assim será. E sim, estou a par de todos os protestos que têm havido no mundo inteiro - se escolherem participar, por favor sejam cautelosos e pensem na vossa e na saúde dos que vos rodeiam. Se apresentarem sintomas ou tenham estado com alguém que os estava a apresentar e/ou estava doente, por favor não saiam para protestar. Fiquem em casa, gritem das vossas janelas/varandas.


Agora o assunto mais difícil, desconfortável e urgente. Tenho a certeza que estão todos a par do que começou por ser um movimento nos Estados Unidos e que acabou por se globalizar. A morte de George Floyd foi a última gota, foi o momento que fez com que se dissesse "de uma vez por todas, já chega". Admito que tem sido bastante difícil pôr em palavras a raiva e a agonia que senti quando vi os vídeos que circularam, e por isso tenho que deixar aqui o meu agradecimento ao movimento Amplify Melanated Voices, que pede que se dê espaço às pessoas de raça negra para falar, protestar e dar luz aos seus ideais. É o que escolhi fazer, por falta de habilidade para pôr em texto tudo o que sinto (que, vamos lá ver, nem é o que realmente importa) e por respeito à comunidade de raça negra do mundo inteiro. Se seguem a conta da Heróis no Instagram, devem ter reparado que tenho partilhado vários recursos educacionais, vários pontos de vista e várias ideias que considero pertinentes. Escolho continuar a fazer isso, pois tenho a certeza que quem vive o racismo e a injustiça na pele todos os dias saberá expressar-se muito melhor do que eu poderia - e também acho que não é o meu lugar pôr as minhas palavras a explicar as da comunidade de raça negra.


No entanto, chegou a altura de fazer algo também: não falar sobre os meus sentimentos, não roubar atenção a quem a merece mais do que eu... Sendo a Heróis sem Capa aquilo que é e defendendo aquilo que defende, estaria errado se não fizesse aquilo que sei fazer, e é aí que entram os três heróis do mês de junho: Elly, Martsy e Tray. Inspirados em três (das muitas) personalidades que marcaram a História dos Direitos Civis Afro-americanos e que, para mim, representam as várias posições fundamentais no movimento do Black Power e do Black Lives Matter: Ella Baker, Marsha P. Johnson e Trayvon Martin.


Ella Baker. Ativista dos Direitos Civis e Humanos Afro-americanos, que atuou durante mais de 50 anos em prol da igualdade entre todos, começando por se associar à NAACP (de 1938 a 1953), passando pela SCLC (de 1957 a 1960), organizando o evento que levou à criação da SNCC (de 1960 a 1966) e terminando na SCEF (de 1962 a 1967). Trabalhou ao lado de alguns dos mais importantes líderes do movimento dos Direitos Civis do século 20, como William Edward Burghardt Du Bois, Thurgood Marshall, Asa Philip Randolph e Martin Luther King Junior e foi mentora de outras muitas, entre elas Diane Nash, Stokely Carmichael, Rosa Parks e Bob Moses. Sugiro-vos que investiguem sobre todos estes nomes e que os memorizem (basta clicarem nos nomes deles aqui no post, faço o trabalho de os procurar por vocês eheh). Baker lutou a vida inteira pela democracia racial e a capacidade de os oprimidos terem a força que precisam para defenderem os seus direitos. Por todo o seu trabalho de "backstage", por todo o tempo que dedicou a ser mentora de tantos ativistas e tantos aliados, é considerada uma das líderes americanas mais importantes do século 20, e talvez a mulher mais influente do movimento dos Direitos Civis. Foi uma heroína, destemida e poderosa, não há sombra de dúvidas, e o seu legado continua presente na persistente luta contra o racismo atual.


Marsha P. Johnson. Ativista da Libertação Gay e drag queen auto-identificada. Conhecida como ávida defensora dos Direitos Homossexuais, foi uma figura proeminente na Rebelião de Stonewall, tendo estado na linha da frente dos protestos contra a opressão policial. Lutou incansavelmente em nome de trabalhadores do sexo, prisioneiros e pessoas com SIDA/HIV. Foi membro fundador da Frente de Libertação Gay, e co-fundou a organização de defesa de homossexuais e travestis S.T.A.R.. Esta organização proporcionou um dos primeiros espaços seguros nos Estados Unidos para jovens transsexuais e sem-abrigo, e é considerada ser uma organização inovadora no movimento de libertação queer e um modelo para muitas outras organizações. Marsha mostrou a toda a gente de quantas direções a opressão pode vir e, décadas depois da sua ação revolucionária no movimento dos Direitos Homossexuais, a cidade de Nova Iorque decidiu erguer uma estátua em sua homenagem. Marsha lutou também contra doenças mentais, tendo tido até alguns surtos psicóticos e estando ativamente medicada, mas nunca o escondeu, nem sentia vergonha dessa parte de si. Sem desculpas, sem medo, sem algemas que pudessem conter o seu espírito (pois o corpo prenderam dezenas de vezes), Marsha P. Johnson foi a revolução que a comunidade LGBTQI+ precisava para chegar onde chegou hoje. E, mais do que isso, é a cara do respeito pela comunidade LGBTQI+ negra. Foi uma heroína, corajosa e honesta, não há sombra de dúvidas, e o que nos deixou da sua vida são lições que merecem ser partilhadas com todos, e entre todos.


Trayvon Martin. Adolescente. Inocente. Rapaz Afro-americano de 17 anos, natural de Miami Gardens (Flórida, EUA). Saiu para comprar Skittles em Stanford (Flórida, EUA), no dia 26 de fevereiro de 2012. Ao voltar para casa, George Zimmerman, um membro da vigilância comunitária, viu o Trayvon e ligou para a polícia, dizendo que o adolescente estava a ter um comportamento suspeito. Minutos depois, Zimmerman disparou sobre o Trayvon e este faleceu. Zimmerman foi ferido durante o incidente e alega ter agido em legítima defesa. Não foi acusado na altura por falta de provas para refutar tal alegação. Algum tempo depois, devido à pressão dos media e da população, Zimmerman foi acusado mas o júri absolveu-o de homicídio em segundo grau. Não sei se estão a par de algumas leis dos EUA mas, mesmo que se conseguisse aglomerar provas para um apelo a esta decisão, Zimmerman não poderia voltar a ser acusado de homicídio em segundo grau. Trayvon Martin era um adolescente dito normal, com uma vida dita normal: ia à escola, passava tempo com os amigos, gostava de Skittles, e que morreu injustamente, nas mãos do preconceito. Não quero falar mais sobre, nem mencionar mais o nome do homem que lhe tirou a vida aos 17 anos, pois não merece a atenção. Vou falar-vos, em vez disso, do legado do Trayvon. Após a sua morte, marchas e protestos foram realizados em todos os Estados Unidos, incluindo os alunos da escola que frequentava, que fizeram um protesto de paralisação em honra à memória dele. Foi lançada uma petição que conseguiu 2,2 milhões de assinaturas. O caso teve mais cobertura nos media que a corrida presidencial que decorria. Tem um memorial em sua honra no Museu Histórico de Goldsboro Westside, dedicado à História da Comunidade de Raça Negra, em Stanford, desde julho de 2013. O legado do adolescente, no entanto, não fica por aí. Devido à absolvição do assassino, surgiu o movimento Black Lives Matter, que na altura começou por ser uma hashtag (#BlackLivesMatter), e que é um movimento internacional de Direitos Humanos, que faz campanhas contra a violência e o racismo sistémico em relação aos negros. Realiza também regularmente protestos contra a violência policial sobre a comunidade Afro-americana, desigualdade racial no sistema de justiça criminal e contra o perfil racial (como andam a ver agora). Trayvon Martin foi um herói, inocente e querido, não há sombra de dúvidas, e com o injusto falecimento dele aprendemos a dar valor às questões sociais que nos rodeiam.


Temos três heróis. Três heróis que representam os aspetos fundamentais da luta contra o racismo e a injustiça social. Não são os únicos, de maneira nenhuma, mas representam todos os nomes: os daqueles que fundaram e continuaram os movimentos dos Direitos Civis e que, mais do que tudo, educaram gerações atrás de gerações sobre a importância de ser anti-racista; os daqueles que, silenciosamente, construíram as pontes que nos trouxeram até onde estamos hoje, e a quem devemos a evolução da nossa sociedade; os daqueles que, com gritos e protestos, mostraram que a igualdade não é inatingível, e que o progresso faz-se andando para a frente e não para trás; os daqueles que injustamente caíram, pelas mãos de quem se recusa a evoluir, mas que deixaram marcas na vida de todos, e que servirão como exemplo para o futuro. Herói é herói, silencioso, barulhento, agitador ou comedido. Herói fala, herói defende. Herói cai e, se puder levanta-se. Herói ajuda herói, e agora é hora de todos ajudarmos os nossos heróis vítimas de opressão, preconceito e injustiça. Apelo ao vosso bom-senso, heróis. Uma cor é só uma cor, no final do dia o que importa é quem somos por dentro, isso é o que deixa marcas.


E, para terminar, deixo duas citações que encontrei online, que acho que são excelentes para mostrar o papel de todos nós e rematar tudo isto:



"Resistance is not a one lane highway. Maybe your lane is protesting, maybe your lane is organising, maybe your lane is counseling, maybe your lane is art activism, maybe your lane is surviving the day. Do NOT feel guilty for not occupying every lane. We need all of them."


"Some are posting on social media. Some are protesting in the streets. Some are donating silently. Some are educating themselves. Some are having tough conversations with friends and family. A revolution has many lanes - be kind to yourself and to others who are traveling in the same direction. Just keep your foot on the gas."



Deixo-vos com a ilustração dos três heróis do mês e um batalhão de links que podem (e devem consultar) :) juntos fazemos a diferença!


Até breve, heróis! Mantenham-se seguros.

#BlackLivesMatter







Links úteis, para que possam...

Informar-se sobre os heróis que apresentei:

— Ella Baker, Wikipedia: https://en.wikipedia.org/wiki/Ella_Baker — Ella Baker, SNCC: https://snccdigital.org/people/ella-baker/

— "Ella Baker’s Legacy Runs Deep. Know Her Name.", por Barbara Ransby: https://www.nytimes.com/2020/01/20/opinion/martin-luther-king-ella-baker.html

— Ella Baker, Biography.com: https://www.biography.com/activist/ella-baker — Marsha P. Johnson, Wikipedia: https://en.wikipedia.org/wiki/Marsha_P._Johnson — The Marsha P. Johnson Insitute: https://marshap.org/

— "Marsha P. Johnson, a black transgender woman, was a central figure in the gay liberation movement", por Christina Maxouris: https://edition.cnn.com/2019/06/26/us/marsha-p-johnson-biography/index.html — 100 Women of the Year, 1969: Marsha P. Johnson: https://time.com/5793632/marsha-p-johnson-100-women-of-the-year/ — Trayvon Martin, Wikipedia: https://en.wikipedia.org/wiki/Trayvon_Martin

— "Florida teen Trayvon Martin is shot and killed", por Orlando Sentinel: https://www.history.com/this-day-in-history/florida-teen-trayvon-martin-is-shot-and-killed

— "The Wound Has Never Healed”: Community Leader Reminded of Trayvon Martin Amid Floyd Protests", por Dan Messineo: https://www.baynews9.com/fl/tampa/news/2020/06/03/reflecting-on-trayvon-martin-amid-george-floyd-protests

— George Zimmerman not guilty of Trayvon Martin murder, BBC News: https://www.bbc.com/news/world-us-canada-23304198



Informar-se sobre a História da Comunidade Negra:

— Black Lives Matter: https://blacklivesmatter.com/

— Black Lives Matter, Wikipedia: https://en.wikipedia.org/wiki/Black_Lives_Matter

— "Five African Americans Forgotten in History", por Joe McGasko: https://www.biography.com/news/african-american-firsts-history

— "Black History Milestones: Timeline", por Bettmann Archive: http://history.com/topics/black-history/black-history-milestones

— "18 Key Figures from the Civil Rights Movement", por Alex Browne: https://www.historyhit.com/key-figures-from-the-civil-rights-movement/

— "44 African-Americans who shook up the world", por Kevin Merida: https://theundefeated.com/features/the-undefeated-44-most-influential-black-americans-in-history/

— "40 Unsung Heroes of Black History We Should All Learn About This Month", por Trista https://historycollection.co/40-unsung-heroes-of-black-history-we-should-all-learn-about-this-month/

— "Who was George Floyd? Unemployed due to coronavirus, he’d moved to Minneapolis for a fresh start.", por Todd Richmond: https://www.chicagotribune.com/nation-world/ct-nw-george-floyd-biography-20200528-y3l67rrmfnb3dh4x3i5iipneq4-story.html

— "Here’s What You Need to Know About Breonna Taylor’s Death", por Richard A. Oppel Jr.: https://www.nytimes.com/article/breonna-taylor-police.html



Informar-se sobre racismo em Portugal (este artigo da Comunidade Cultura e Arte é extremamente completo):

— "Racismo em Portugal: compilação de recursos e referências para perceber e combater o racismo português": https://www.comunidadeculturaearte.com/racismo-em-portugal-compilacao-de-recursos-e-referencias-para-perceber-e-combater-o-racismo-portugues/



Assinar petições:

— Justiça para Breonna Taylor: https://www.standwithbre.com/

— Justiça para George Floyd: https://www.change.org/p/mayor-jacob-frey-justice-for-george-floyd?utm_source=brand_us&utm_medium=media&use_react=false

— We Can't Breathe: https://www.wecantbreathenational.org/

— Justiça para Belly Mujinga: https://www.change.org/p/govia-thameslink-justice-for-belly-mujinga-justiceforbellymujinga

— Justiça para Tony McDade: https://www.change.org/p/justice-for-tony-mcdade?use_react=false

— Justiça para Ahmaud Arbery: https://www.change.org/p/liberty-county-distric-attorney-justice-for-ahmaud-arbery



Doar: