MafiMary


[ PT ]


Olá, olá, meus queridos heróis! Espero encontrar-vos bem e de boa saúde, a desconfinar devagarinho e sem pressas :)


Está na altura de vos apresentar mais um Herói do Mês, não é verdade? Chego sempre ao meio de cada mês desejosa de me pôr a escrever aqui no blog para vos contar mais uma história de vida, mais um testemunho, e este julho não é diferente. Mesmo considerando o facto de que 2020 estar a ser um ano difícil, a muitos níveis, e que muitas coisas estejam a custar ou a ser mais complicadas de levar a cabo. Mas suponho que posso dizer que tenho a sorte de continuar a sentir que vale a pena vir para aqui falar-vos de pessoas que me inspiram e que tenho a certeza que vos vão inspirar a vocês - pelo menos isso, pelo menos por enquanto.


Sem mais demoras, pondo de parte o lado mais pesado deste ano, vamos lá conhecer o Herói do Mês de julho! Ou melhor dizendo, a Heroína do Mês de julho.


Apresento-vos a MafiMary. Para alguns é bem possível que este nome soe familiar, principalmente se forem uma das quase 14.5 mil pessoas que seguem uma conta no Instagram com o mesmo nome. É verdade, não estou a falar de nenhuma outra heroína que não a Mafalda Ribeiro! Para quem reconhece o nome e sabe de quem estou a falar, com certeza estão a esboçar um sorriso e a pensar no quão contagiante é a energia da Mafalda. Para quem não reconhece, nada temam, depois de lerem todo o post o desfecho será o mesmo.


A Mafalda é uma mulher de 37 anos que vive uma vida independente, com 5% de mobilidade motora - leram bem, 5%, devido ao facto de ter sido diagnosticada com Osteogénese Imperfeita (mais conhecida como a Doença dos Ossos de Vidro, ou como a Mafalda lhe prefere chamar, Doença dos Ossos de Cristal - é bem mais requintado, tal como ela). Este diagnóstico, o que quer dizer, assim em linguagem corrente, é que os ossos da Mafalda são extremamente frágeis, tendo ela sofrido já mais de 100 fraturas até à data, percorridas pelo seu corpo inteiro. Fraturas estas que, devido à falta cálcio no corpo da Mafalda que, consequentemente, resulta na elevada fragilidade dos seus ossos, requerem imobilidade total durante largos períodos de tempo, para que possam recuperar sozinhas - gesso e talas e outros modos de imobilização pesados podem piorar a situação.


Hoje, no entanto, não estamos aqui para falar do diagnóstico da Mafalda, ainda que faça parte de quem ela é, não há como fugir a isso (e porque haveríamos de o fazer?). Isso é algo que faz dela quem ela é, e que não mudará nunca. Estamos aqui, no entanto para falar do espírito, da energia e do lugar da Mafalda no mundo - é isso que realmente faz dela, aos meus olhos, uma heroína.


Precisam de saber, para compreenderem melhor a Mafalda, que ela não é de obedecer às convenções. Gosta de desafiar as probabilidades, os estigmas e todos os altos e baixos que a vida lhe traz. Porque digo isto? Pois olhem... Quando nasceu, deram-lhe horas de vida, e agora já vai nos 37 anos. Foi-lhe dado um corpo pequeno e quebrável, mas que ela encara apenas como a sua peculiar "embalagem", e que diz ser um veículo para atrair as pessoas para as palavras que saem da sua boca. Deram-lhe uma sociedade que não está, de todo, inteiramente adaptada a pessoas com mobilidade reduzida, mas na qual ela participa e é uma cidadã responsável, sempre com um sorriso de orelha a orelha. Introduziram-na num mundo de preconceito e de marginalização, mas ela recusa-se a olhar para si mesma com nada que não seja amor e gratidão e jamais toleraria que o seu mérito fosse ignorado. Não tinham grandes esperanças para o futuro, mas aqui está a Mafalda, formada em comunicação, oradora motivacional, cronista, autora, gestora de um projeto seu (Sorrir sobre rodas), coach, amiga, filha, irmã, humana.




Mafalda M. (eu): Estarmos sozinhos e sentirmo-nos sozinhos são realmente duas coisas diferentes. Sei que me compreendes quando digo que a ligação entre seres humanos é uma das maiores dádivas da vida. Quem dirias que é absolutamente indispensável na tua história?


Mafalda R. (heroína): Acho que a palavra indispensável não devia ser usada para a ligação entre pessoas pois soa-me sempre a descartável. No entanto, apesar de ser natural eu afirmar que se não fossem os meus pais eu não estaria cá... A verdade é que o meu pai teve um papel decisivo nas minhas primeiras horas de vida. Ou seja, contra os próprios prognósticos médicos, foi ele que assinou um termo de responsabilidade para eu vir "morrer" a casa. Desejo, entusiasmo, desilusão e aceitação sempre embrulhados num Amor sem condições foi a viagem que os meus fizeram comigo e sei que foi essa viagem que me construiu.


Eu sou um mix dos dois em qualidades, defeitos, feitio e até em parecenças físicas. Depois da partida repentina da minha mãe em 2011, e porque não tenho irmãos de sangue, passei a ser eu e o meu pai apenas. Logo, apesar de saber que um dia isso vai acontecer, não imagino o meu dia-a-dia sem ele. É um grande companheiro e também amigo dos meus amigos.




A Mafalda acredita que todos estamos aqui por uma razão. Quer se descubra cedo ou tarde, há sempre uma razão pela qual estamos aqui. Essa razão nada tem a ver com o nosso aspeto, vem de dentro. Na minha opinião, e embora haja uma divergência entre as crenças da Mafalda e as minhas, tenho que concordar e dizer que essa é uma maneira de encarar vida muito bonita e capaz de trazer força em momentos duros. Não quer nada disto dizer que o papel de todos é sermos pioneiros em alguma área, ou inventarmos alguma coisa que vai revolucionar o mundo. Às vezes basta fazermos o dia de alguém, com um gesto pequenino e até sem darmos conta.


Outra coisa que é muito importante para esta heroína é a gratidão. É a gratidão que a move, que lhe dá força, que faz com que não se sinta pequena (ainda que, fisicamente, o seja - vivam os seus 97cm de pura alegria), que lhe permite dar as palestras que dá e ajudar os outros a olhar para dentro e perceber que, ainda que a vida não fique mais fácil, haverá sempre qualquer coisa pela qual podemos estar agradecidos - nem que seja respirar. E isso é um pequeno primeiro passo para levar a cabo uma vida mais preenchida e saudável.




MM: Sei que isto te está no sangue quase, a tua força e segurança em ti mesma, mas imagino que mesmo assim alguns dias sejam difíceis. Onde arranjas inspiração e motivação para continuar a atingir os teus objetivos?

MR: Costumo dizer que é mesmo parte do meu ADN, mas sei que foi uma decisão que resultou numa conversão e que agora é um trabalho de consistência. Tem tudo a ver com fé. Não só em mim, pela auto-estima. Não só nos outros, pela confiança e empatia nos que me rodeiam. Não só no mundo, pelo meu optimismo e esperança incorrigíveis. A base de tudo aquilo que eu creio é a minha fé Cristã porque é a partir dela que me encontro e reconheço. Jesus é o meu melhor modelo de Amor. E motiva-me a certeza de que fui criada única com um propósito, por isso a minha força, resiliência e superação para os dias menos bons vem da noção da minha própria identidade em Deus.




Tenho a dizer-vos que tudo isto que vos escrevo, tirando alguns factos que tive que verificar/acrescentar a posteriori, captei da conversa que tive com a Mafalda, depois de lhe dizer que gostava que fosse minha heroína do mês. A verdade é que já andava com um olho posto nela há uns meses, talvez até desde o ano passado, mas nunca tinha conseguido arranjar lata suficiente para me chegar à frente e falar com ela. Até agora, muahahah. Consegui (yay!) e, para grande felicidade minha, ela aceitou que lhe prestasse esta homenagem. Quando conversámos, eu quase que me limitei a ouvi-la falar, pois estava assim meia hipnotizada pela energia e pela descontração nas suas palavras. Está sempre disponível para fazer mais. Apesar das mil coisas que leva a cabo na sua vida normal - é uma mulher que trabalha MUITO, conseguiu dedicar uma hora de conversa para se dar a conhecer a um projeto que, ainda que a admire muito, pouco lhe poderá trazer. É algo pelo qual estou imensamente grata, pois conversar com os meus heróis é o que mantém este projeto à superfície. Não houve cá meios caminhos para dizer as coisas - e ainda bem, nem meias palavras para constituir descrições. As coisas são o que são e o importante é o que fazemos e como reagimos a elas. Sinceramente, acho que isso é o que mais me fascina na Mafalda - a falta de tabus e o olhar indomável em relação à vida. É uma heroína, dos pés à cabeça.

MM: Quando falámos sobre o que gostarias de ver na tua ilustração, disseste que querias ver representada a força do teu coração como uma luz guia sob um céu estrelado - como a de um farol. É assim que gostarias que as pessoas te vissem e, em gerações futuras, se lembrassem de ti?

MR: Mais do que ser lembrada pelas coisas que fiz gostava que me recordassem por quem fui. Uma ponte de esperança para quem precise de fazer duras travessias. E ser de facto luz na escuridão e sal num mundo tantas vezes sem sabor. Nem sempre somos aceites ou compreendidos quando não temos sonhos e objectivos comuns com a maioria. No meu caso, sempre soube que fui chamada para algo maior do que eu. Exactamente porque o meio que uso, a minha vida, é a mensagem e aceitei submeter-me à missão de transmitir aos outros que a maior força é aquela que vem do interior.




Peço-vos que tirem um bocadinho do vosso tempo para ouvir a Mafalda falar - não só pela sua voz de "desenho animado" (como lhe chama a Mafalda), como também por tudo o que tem para ensinar. As suas palavras iluminam. Deixo-vos uma série de links em baixo para esse efeito e para poderem saber mais sobre ela e onde a podem encontrar.


Espero que tenham gostado de conhecer a Mafalda e, consequentemente, a MafiMary, e que tirem um pouco de tempo do vosso dia para agradecer-vos a vocês mesmos por estarem aqui connosco, hoje, vivos e a conhecer heróis do dia-a-dia.


Até breve, e que a força das Mafaldas esteja convosco!




P.S. O sorriso de que falei no início apareceu ou não? Contem lá...



Links úteis:

— Instagram: https://www.instagram.com/mafimary

— Facebook: https://www.facebook.com/sorrirsobrerodas

— "Thanks Living", em parceria com a Infinitebook: https://www.infinitebook.com/collections/cadernos/products/infinitebook-a5-thanks-living-by-mafalda-ribeiro

— Mafalda no podcast "Imperdíveis", com Laurinda Alves: https://observador.pt/programas/imperdiveis/dentro-da-minha-anormalidade-sou-anormalmente-feliz/

— Mafalda no podcast "Maluco Beleza Liveshow", com Rui Unas: https://www.youtube.com/watch?v=XAAPdwHFo_I

— "Eu Sou", Sorrir sobre Rodas: https://www.youtube.com/watch?v=m1eZg1YjVpU

—“Parti ossos 90 vezes. Mas agradeço sempre, até as dores”, na revista Visão: https://visao.sapo.pt/atualidade/sociedade/2016-05-06-mafalda-ribeiro-parti-ossos-90-vezes-mas-agradeco-sempre-ate-as-dores/

— Mafalda no programa "Alta Definição": https://sic.pt/Programas/altadefinicao/videos/2016-05-07-Mafalda-Ribeiro-em-Alta-Definicao







[ EN ]

Hello, hello, my dear heroes! I hope to find you well and in good health, slowly and unhurriedly getting into a new normal :)


It's time to introduce you to another Hero of the Month, ain’t it true? I always get to the middle of each month wanting to start writing here on the blog to tell you another life story, another testimony, and this July is no different. Even considering the fact that 2020 is turning out to be a really tough year, on so many levels, and that many things are more complicated to carry out. But I suppose I can say that I am fortunate to continue to feel that it is worth coming here to talk to you about people who inspire me and who I am sure will inspire you - at least for the time being.


Without further ado, putting the heavier part of this year aside, let's meet the Hero of the Month for July! Or rather, the Heroine of the Month for July.


I introduce you to MafiMary. For some it is quite possible that this name sounds familiar, especially if you’re one of the almost 14.5k people who follow an Instagram account with the same exact name. It’s true, I’m talking about no other hero than Mafalda Ribeiro! For those who recognise the name and know who I am talking about, you're certainly smiling and thinking about how contagious Mafalda's energy is. For those who don’t recognise it, fear nothing, after reading the entire post you’ll find yourselves doing the exact same.


Mafalda is a 37 year-old-woman who lives an independent life, with only 5% motor mobility - yes, you read well, 5%, due to the fact that she carries the diagnosis of Osteogenesis Imperfecta (better known as the Glass Bones Disease, or as Mafalda prefers to call it, Crystal Bones Disease - it’s much more refined, just like her). This diagnosis, what it means, in current language, is that Mafalda's bones are extremely fragile, having had her suffer over 100 fractures to date, all over her entire body. Fractures that, due to the lack of calcium in Mafalda's body, which consequently results in the high fragility of her bones, require total immobility for long periods of time, so that they can recover on their own - plaster and splints and other heavy immobilisation methods can worsen the situation.

Today, however, we’re not here to talk about Mafalda's diagnosis, even if it is part of who she is, there is no escape from that (and why should there be?). It’s something that makes her who she is, and that will never change. Today, however, we’re here to talk about Mafalda's spirit, energy and place in the world - that's what really makes her, in my eyes, a hero.


You have to know, in order to better understand Mafalda, that she is not one to follow the conventionality. She likes to challenge the odds, the stigmas and all the ups and downs that life brings. Why do I say this? Well, let’s see… When she was born, she was given only hours to live, and now she is 37 years old. She was given a small, breakable body, but which she sees only as her peculiar "packaging", about which she says is a vehicle for attracting people to the words that come out of her mouth. They gave her a society that is not, in any way, entirely adapted to people with reduced mobility, but in which she participates and is a responsible citizen, always with a smile from ear to ear. They introduced her into a world of prejudice and marginalisation, but she refuses to look at herself with anything other than love and gratitude and would never tolerate her merit being ignored. They did not have high hopes for her future, but here is Mafalda, graduated in communication, a motivational speaker, chronicler, author, manager of her own personal project (Smiling on wheels), coach, friend, daughter, sister, human.


Mafalda M. (me): Being alone and feeling alone really are two different things. I know you get me when I say that the connection between human beings is one of the greatest gifts of life. Who would say that it is absolutely indispensable in your history?


Mafalda R. (hero): I think the word indispensable should not be used in regard to a connection between people as it always sounds somewhat disposable. However, although it is natural for me to say that if it weren't for my parents, I wouldn't be here... The truth is that my father played a decisive role in my first hours of life. In other words, against all the medical prognosis, it was him who signed a term of responsibility for me to come home "to die". Desire, enthusiasm, disillusionment and acceptance always wrapped in unconditional Love was the journey that mine took with me and I know that that's the journey that built me.


I am a mixture of both my parents in qualities, defects, shape and even physical resemblance. After my mother's sudden departure in 2011, and because I don't have any blood-related brothers, I just became my father and me. So, despite knowing that one day the same it will happen, I can't imagine my day-to-day life without him. He is a great companion and also a good friend of my friends.

Mafalda believes that we are all here for a reason. Whether you discover that sooner or later, there is always a reason why we are here. That reason has nothing to do with our appearance, though, it comes from within. In my opinion, and although there is a divergence between Mafalda's beliefs and mine, I have to agree and say that this is a very beautiful way of facing life and capable of bringing strength during hard times. This doesn't mean to say, in any way, that everyone's role is to be pioneers in some area, or to invent something that will revolutionise the world. Sometimes it is enough to make someone's day, with a small gesture and without even realising it.