Monty

Num mundo caótico e apressado, existe a necessidade de encontrar feixes de luz que nos aconcheguem o coração. Gotas, aqui e ali, que nos mostrem o lado bom da vida e que nos inspirem a enfrentar os nossos dias com garra. Ora, é exatamente isso que planeio trazer-vos este mês: um herói que ilumine o vosso dia (e garanto que o fará) e que restaure, pelo menos, um bocadinho da vossa esperança.


Monty é o nome do herói do mês de maio, e é uma homenagem a um bombeiro da região de Sesimbra chamado Marcus Monteiro Barros. A sua história chegou até mim através de uma mensagem privada no Instagram, de um dos pacientes transportados pelo Marcus (que escolheu o anonimato), pois sentia que estava na altura de lhe mostrar o quanto é apreciado e adorado. E quando me enviam uma mensagem a falar de um homem que exerce a sua profissão com paixão e o coração, que prescinde do seu tempo pessoal para se certificar que todos se sentem vistos e cuidados e que, apesar de todo o esforço feito para o reter e deitar abaixo, escolhe aparecer todos os dias, fazer longas horas e certificar-se que ninguém é esquecido, que posso eu fazer que não seja responder: "por favor, por favor, por favor, dê-me o contacto de este herói, que vamos fazer dele o nosso herói do mês ASAP*"?


E agora aqui estamos. Tive a honra de falar pessoalmente com o Marcus, o que, sempre que é possível, me deixa incrivelmente feliz, e pude testemunhar todas as doces palavras que me tinham sido transmitidas pelo herói anónimo no Instagram. Deu para perceber porque é que é tão adorado, e porque é que mais gente deveria conhecer a sua história.


O Marcus vem de uma favela no Brasil. Foi criado por mulheres, nomeadamente a sua mãe, tia e avó, sendo que a última, após um derrame que a paralisou, lhe mostrou que o que ele queria fazer era salvar pessoas. Tentou salvar a vida da avó, mas não conseguiu. Antes de falecer, no entanto, e por ver que o talento do neto estava, exatamente, em cuidar dos outros, a sua avó declarou ao mundo que "o meu filho vai ser bombeiro", e essa foi uma promessa que o Marcus levou a sério.


Chegou ao cargo de bombeiro civil no Brasil. Serviu lá, durante um tempo, mas há quatro anos decidiu, em conjunto com a sua esposa, que o seu futuro era em Portugal. Largaram tudo para começar do zero aqui, e bem que tentaram mas foi bastante difícil. Decidiram então mudar de ares e foram uns tempos para Inglaterra. Quando decidiram que era hora de voltar a Portugal, abriram vagas para ser bombeiro em Sesimbra. Estava tudo, finalmente, a encaixar-se.


Desde então, o Marcus dedica-se de corpo e alma a garantir que todos os seus pacientes saem, chegam e regressam onde precisam com segurança e um sorriso de orelha a orelha. Certifica-se que tem sempre algo novo para contar, para distrair e trazer conforto aos pacientes. Não deixa ninguém para trás - isto é algo que reforçou várias vezes durante a nossa conversa e que me foi dito, também, pelo herói anónimo que me apresentou a história do Marcus. Faz horas extraordinárias para assegurar que estabelece uma relação de carinho, credibilidade e confiança com todos e qualquer um que entre no seu veículo de transporte. Faz questão de levar, pela sua própria mão, os seus pacientes aos tratamentos que os esperam. Fica à espera, se for preciso, horas (atrasando os seus compromissos seguintes ou mesmo prescindindo do seu tempo pessoal), porque não abandona sem saber que está tudo em ordem e os seus pacientes estão bem. É um homem fiel, que se desdobra vezes sem conta em prol do bem estar de quem transporta. Põe os outros em primeiro lugar, zela pelo bem-estar de todos e tem uma resistência de invejar.


Também não é nenhum estranho para com o racismo enraizado na nossa sociedade. Tem de o encarar mais vezes do que as que esperaria e em contextos onde não deveriam existir, mas continua por cá e não desistirá. Põe tudo na balança e acredita que, no final do dia, o que faz deixará um legado bem maior do que as pobres ações de quem o vê como um forasteiro, e não como um membro fundamental da nossa sociedade. Vê os seus próprios sacrifícios como prova de que a bondade existe e que está bem presente à nossa volta. E sabe, ou pelo menos eu espero que o saiba, que a sua avó teria um orgulho infinito na pessoa que se tornou.


O Marcus é um feixe de luz; uma lufada de ar fresco. Mais uma prova viva de que os heróis caminham entre nós e que, por vezes, passam despercebidos - ainda que neste caso seja reconhecido por quem o rodeia. Sinto um orgulho imensurável quando recebo uma mensagem a contar a história de alguém que faz com que o dia das pessoas à sua volta se torne melhor pela sua presença. São todas as aparentemente pequenas coisas que faz todos os dias que o vão manter nos corações de todos os que o conhecem (e agora no meu e nos vossos). É isto que faz a diferença. É o que faz dele um herói.


Espero que tenham gostado de conhecer a história do Monty/Marcus. Sabe bem trazer um testemunho verdadeiramente positivo, com todo o potencial para vos deixar a sorrir e inspirados!



Até breve, heróis :)




*ASAP - as soon as possible; em português - um quanto antes.


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